Milênios Antes da Ciência, Eles Já Sabiam

Muito antes de a ciência moderna surgir com seus jalecos, microscópios e protocolos, os antigos egípcios já operavam uma medicina complexa, intuitiva e surpreendentemente eficaz. Um exemplo simbólico disso é o uso de pão mofado no tratamento de infecções. O que parecia um simples ritual rudimentar, fruto da superstição, na verdade escondia um conhecimento milenar que só seria reconhecido pela ciência ocidental em 1928, com a descoberta da penicilina por Alexander Fleming. A penicilina, derivada do fungo Penicillium — o mesmo que se desenvolve em pães em decomposição — viria a se tornar um dos antibióticos mais revolucionários da história da medicina. Ou seja, cinco mil anos antes, os egípcios já aplicavam, de forma empírica, um saber que só seria decodificado racionalmente milênios depois.

Esse é apenas um entre os muitos exemplos de como os egípcios estavam não apenas à frente de seu tempo, mas muitas vezes, além do nosso. Sua compreensão da saúde, da espiritualidade, da cosmologia e da arquitetura revela um povo que não via separação entre o visível e o invisível, entre o corpo e o espírito, entre ciência e magia. A medicina egípcia incluía cirurgias cranianas, uso de plantas medicinais, diagnóstico pelo pulso, tratamento energético e rituais simbólicos que tocavam o campo emocional e espiritual do paciente. Tudo isso reunido numa tradição que entendia o ser humano como um todo — algo que só recentemente a medicina contemporânea começa a resgatar com o nome de “abordagem integrativa”.

Mas o avanço egípcio não se restringia às práticas de cura. Ele também se manifestava na forma como aquela sociedade lidava com temas que, até hoje, provocam controvérsia em culturas marcadas por dogmas. A sexualidade, por exemplo, era vivida de maneira aberta, natural e plural. Não havia perseguição institucional a relações homoafetivas. Pelo contrário: há registros que indicam que vínculos entre pessoas do mesmo sexo eram reconhecidos socialmente, inclusive representados em tumbas e murais com gestos de afeto e intimidade. Isso em pleno terceiro milênio antes de Cristo — enquanto ainda hoje, em pleno século XXI, há países que punem com prisão ou morte quem ousa amar diferente da norma imposta.

O caso de Nyankh-Khnum e Khnum-hotep é um testemunho eloquente dessa sabedoria ancestral. Ambos altos funcionários da corte durante a 5ª dinastia, decidiram — ou tiveram decidido por suas famílias — que seriam sepultados juntos, em uma mesma tumba decorada com cenas de afeição que sugerem intimidade profunda. As imagens os mostram tocando os rostos e se abraçando nariz com nariz, um gesto que no Antigo Egito simbolizava o beijo. Embora ambos tenham tido esposas e filhos, a iconografia escolhida para sua eternidade revela que a conexão entre eles era especial o suficiente para ser eternizada — sem censura, sem moralismo, sem tabu.

Esse reconhecimento de vínculos afetivos entre pessoas do mesmo sexo no Antigo Egito contrasta fortemente com os padrões de repressão que se consolidaram posteriormente, especialmente com a ascensão das religiões monoteístas.

Enquanto o mundo se tornava mais dogmático e binário em suas definições sobre gênero, desejo e identidade, os egípcios lidavam com a pluralidade como parte da ordem natural das coisas. A própria linguagem simbólica usada em muitos textos e rituais deixava espaço para múltiplas interpretações da experiência humana — algo que só reforça a ideia de que liberdade, no Egito, era mais do que um conceito político: era uma prática de existência.

Além da medicina e da sexualidade, a espiritualidade egípcia também revela o quanto essa civilização estava sintonizada com princípios atemporais. O conceito de Maat, por exemplo — representando a ordem cósmica, a verdade, a justiça e o equilíbrio — era a base da ética egípcia e orientava tanto a vida individual quanto as decisões do Estado. As famosas 42 Leis de Maat, que antecedem em séculos os Dez Mandamentos das religiões abraâmicas, promoviam valores de harmonia com o outro, com a natureza e consigo mesmo.

Outro ponto muitas vezes ignorado é a posição da mulher na sociedade egípcia. Diferente do que se viu em outras civilizações antigas — e até mesmo em várias modernas — as mulheres egípcias tinham autonomia jurídica, podiam possuir propriedades, iniciar divórcios, atuar como médicas, sacerdotisas e até governar. Cleópatra é apenas o nome mais conhecido de uma linhagem de rainhas que exerceram poder político real. A sexualidade feminina também não era reprimida. Estudos mostram que as mulheres tinham liberdade de escolha, inclusive no casamento, e a poligamia era praticada principalmente entre as elites, sem que isso implicasse submissão da mulher ao homem.

A própria ideia de morte, no Antigo Egito, não carregava o peso sombrio que o Ocidente cristão veio a atribuir ao fim da vida. Morrer era uma transição. A preparação para a eternidade era uma arte, um ritual, uma celebração do ciclo cósmico. Por isso, construíram tumbas com textos sagrados, objetos do cotidiano, arte refinada e mensagens codificadas para guiar o espírito no além. Eles não temiam a morte — eles a compreendiam. E, talvez por isso, soubessem viver com mais profundidade.

Diante de tudo isso, não é exagero dizer que os egípcios estavam além do tempo. Eles estavam além do nosso tempo. Em pleno século XXI, ainda engatinhamos em questões que os egípcios já tinham compreendido com naturalidade e profundidade há milênios. A medicina integrativa ainda busca se firmar. A homoafetividade ainda é combatida em nome da ignorância. A mulher ainda precisa lutar por direitos básicos. E a espiritualidade, para muitos, ainda é apenas um ritual vazio, desconectado da natureza e da vida real.

Resgatar o legado do Antigo Egito é mais do que olhar para trás — é ativar em nós uma memória profunda. É lembrar que já soubemos viver de maneira mais consciente, mais integrada, mais sábia. E que podemos, sim, caminhar de volta para esse centro. Como dizia a tradição hermética, nascida no solo egípcio: “Assim como é acima, é abaixo. Assim como é dentro, é fora.” Quando compreendermos isso de verdade, talvez possamos dizer que estamos, finalmente, livres do tempo — e das prisões invisíveis que ele nos impõe.

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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