Não brigue com os espelhos: o segredo da vida está em como você se trata

Eu estava me machucando demais, estava me criticando demais, sendo que não há necessidade. Eu sou uma pessoa super incrível há muito, muito tempo.

Hoje foi um daqueles dias que parecem conter uma vida inteira dentro de si. Um dia de reviravoltas internas profundas, fruto de um processo muito pessoal que venho praticando e que chamo de ancoramento. Mas o que é ancoramento? É um compromisso comigo mesmo, estabelecido por um período de dias, no qual eu decido viver de forma consciente, presente, saindo do olhar viciado do “personagem” e assumindo, cada vez mais, minha posição de observador: a consciência cósmica, atemporal, que habita esse corpo.

Nesse estado mental, a Matrix perde a força. O jogo como se joga aqui não me domina mais. Ainda assim, por vezes, confesso: esqueço quem sou e me reduzo ao ego. Quando isso acontece, o sofrimento volta. Porque passo a acreditar nas limitações do corpo, da cidade, do sistema, do país. Volto a ver barreiras onde antes só havia energia. E talvez seja por isso que, ao longo da vida, sempre tive dificuldades em trabalhos tradicionais, com horários fixos e autoridades estabelecidas. Internamente, sempre me enxerguei como um espírito livre.


Essa liberdade não era um capricho. Era (e é) a expressão natural de quem sente que nasceu para viver como fluxo, não como obrigação. Ao longo dos anos, muitas pessoas me disseram isso. “Wanderson, você é o único espírito livre que eu conheço.” E, apesar das crises e incertezas, é essa autenticidade que me sustenta na internet há tanto tempo.

Quando voltei para o Brasil, no fim da pandemia, sem dinheiro certo, sem um negócio sólido, mergulhei numa tempestade interna. Me critiquei duramente. Não com palavras ditas em voz alta, mas com silências pesados, com pensamentos que ferem. As palavras não ditas, mas sentidas, são as que mais adoecem. E foi assim que, por muito tempo, caminhei com esse peso.

Hoje compreendo que muito do que não fluiu foi fruto dessa energia de autocobrança cruel. E o mais curioso é que, revendo postagens minhas de 2019, quando morava em Dublin, percebo que eu já tinha compreendido coisas fundamentais. Eu já falava sobre organização interna, sobre paz de espírito, sobre como o mundo exterior reflete o estado da nossa mente. Eu já sabia que a vida se organiza de fora quando nos organizamos por dentro.

Mas me desviei. Esqueci. A vida trouxe seus desafios e eu perdi a referência. Agora, no sexto dia desse segundo ancoramento, tudo isso volta. Volta com uma clareza absurda. Volta como resgate. Como memória viva. Como um lembrete do universo: “Você já sabia. Você já era grande. Você apenas esqueceu.”

Hoje eu sei: não posso gastar minha energia com o que não posso controlar. Pensar demais sobre o que o outro sente, diz, pensa de mim… é desperdício. O outro não existe. O que existe é o reflexo da minha própria energia, manifestada em forma de relações, situações, espelhos. E foi aí que eu parei de brigar com espelhos.

Quando organizei minhas “gavetas internas”, quando alinhei meus pensamentos, voltei a cuidar do corpo, da água que bebo, do ar que respiro, do tempo que dedico a mim… tudo começou a se organizar lá fora também. Não sei como o universo faz isso. Mas mesmo quando o mundo está em crise, algo me protege. Algo organiza as coisas para mim.

Talvez seja porque eu parei de lutar contra o reflexo e comecei a cuidar da fonte. Comecei a tratar a mim mesmo com mais amor, menos cobrança, mais presença. Não é sobre se isolar, mas sobre abandonar a necessidade de depender da validação externa.

Hoje eu me sinto inteiro. E parte dessa inteireza veio do reconhecimento de que todas as minhas versões do passado merecem respeito. Elas tomaram decisões com base no que sabiam. E foram essas versões que abriram caminho para este eu de agora.

Portanto, se posso te dizer algo com verdade íntima, é isso:

Pare de brigar com os espelhos.

Se algo lá fora está te ferindo, te cobrando, te diminuindo… volte-se para dentro. Organize-se por dentro. Trate-se com mais doçura, com mais responsabilidade emocional, com mais consciência. O mundo é só um reflexo.

E você é uma pessoa incrível. Talvez só tenha esquecido por um tempo. Mas lembre-se: você não precisa se tornar.

Você precisa apenas se lembrar.

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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