Chácara Quebra-Bunda era um local de torturas físicas e sexuais de africanos escravizados em São Paulo

Escrever sobre esse assunto é sempre revistar um lugar de muita dor, mas é necessário, pois a nossa história não é contada devidamente; ela ainda é conservadora, branca e mentirosa. É preciso que os fatos que ocorreram com nossos ancestrais jamais caiam no esquecimento ou sejam perdoados!

Pouco se fala sobre a violência sexual que os homens africanos sofreram durante o período da escravidão. Enquanto a brutalidade contra mulheres escravizadas é amplamente reconhecida, a violação e abuso de homens africanos têm sido sistematicamente apagados ou minimizados nos relatos históricos. No entanto, essas atrocidades foram uma realidade cruel e devastadora, parte integral do regime de terror mantido pelos escravizadores.

Os homens africanos, arrancados de suas terras e trazidos à força para o Brasil, não apenas enfrentavam trabalho forçado e condições desumanas, mas também eram submetidos a humilhações e abusos sexuais como forma de controle e dominação. A violência sexual contra homens escravizados servia para quebrar seu espírito, desumanizá-los ainda mais e reafirmar o poder absoluto dos senhores de escravos. Esses abusos deixavam cicatrizes físicas e emocionais profundas, agravando o sofrimento já extremo que enfrentavam diariamente.

A cultura do silêncio em torno desse tópico é um reflexo de um sistema que busca perpetuar a imagem dos homens africanos como meros trabalhadores ou guerreiros, desconsiderando sua vulnerabilidade e a completa extensão das atrocidades que sofreram. Essa omissão não é apenas uma falha histórica, mas também um esforço consciente para manter uma narrativa que favorece os opressores e minimiza a barbárie do sistema escravagista.

Chácara Quebra-Bunda
Há 200 anos, o local onde hoje está o bairro da Aclimação, no centro de São Paulo, era ocupado por sítios ao longo do caminho para o povoado de Santo Amaro. Era uma área bucólica e distante do centro na época. Por isso, foi escolhido para abrigar, numa chácara apelidada de Quebra-Bunda, um aparelho paramilitar destinado a torturar e punir escravizados que desagradassem seus senhores. O nome da propriedade vinha do fato de que os negros frequentemente saíam de lá com lesões graves.

A chácara do Telégrafo, ou Quebra-Bunda, foi mencionada por vários memorialistas que escreveram sobre o antigo São Paulo, embora não houvesse documentos comprovando sua existência. No entanto, uma ata da Câmara Municipal de São Paulo, datada de 20 de junho de 1832, confirma a existência do local, mas não a prática de tortura. Situada no morro do Telégrafo, onde havia uma torre, a chácara operou durante o auge do ciclo do café em São Paulo.

Apesar de a escravidão ainda ser legal, a cidade se modernizava e seus dirigentes queriam projetar a imagem de uma metrópole civilizada, em contraste com a prática de castigos públicos comuns em outras partes do império, como no Rio de Janeiro. “Os vereadores paulistas queriam uma cidade ‘civilizada’, de bons modos, e, por isso, não é contraditório que não se castigasse publicamente, como se fazia em outras partes do império”, afirmou Rafael Mantovani, cientista social que estudou o sistema prisional da cidade no século 19.

O jornalista Ernani Silva Bruno, em seu livro “História e Tradições da Cidade de São Paulo”, detalha o que acontecia nessas propriedades clandestinas de castigo aos escravizados. “Para castigar os escravos capturados depois das fugas, ou mesmo para ‘ensinar’ aqueles que não serviam direito aos seus senhores brancos, havia algumas chácaras bem aparelhadas nas vizinhanças da cidade. Uma delas ficou tristemente famosa, e um de seus nomes nasceu de sua função nesse tempo: a do Telégrafo ou Quebra-Bunda”.

“Por ‘aparelhadas’, o cronista se referia a troncos onde os negros eram amarrados e submetidos a açoites, praticados por funcionários das chácaras. No caso da Quebra-Bunda, não se sabe de nenhuma atividade produtiva exercida naquele lugar, que parece ter funcionado apenas para torturas”, afirmou Bruno.

O cronista Antonio Egydio Martins, que escreveu entre 1905 e 1910 no Diário Popular, conseguiu localizar o ponto exato onde ficava a chácara do Quebra-Bunda, hoje ocupado por vias e prédios: “Entre as ruas dos Apeninos, Pires da Mota, Nilo e Paraíso”. Em seu livro “São Paulo Antigo: 1554-1910”, Martins mencionou que “disciplinavam-se os escravos, aplicando-lhes surras, gratuitamente e por amizade aos respectivos senhores, ou mediante pagamento aos proprietários”.

 

A chácara do Quebra-Bunda pertencia ao comerciante José Veloso de Oliveira, que, ao que parece, aumentava seus rendimentos com esses “serviços” prestados.

Abuso sexual de homens na escravidão

 

Há 200 anos, o local onde hoje está o bairro da Aclimação, no centro de São Paulo, era ocupado por sítios ao longo do caminho para o povoado de Santo Amaro. Era uma área bucólica e distante do centro na época. Por isso, foi escolhido para abrigar, numa chácara apelidada de Quebra-Bunda, um aparelho paramilitar destinado a torturar e punir escravizados que desagradassem seus senhores. O nome da propriedade vinha do fato de que os negros frequentemente saíam de lá com lesões graves.

A chácara do Telégrafo, ou Quebra-Bunda, foi mencionada por vários memorialistas que escreveram sobre o antigo São Paulo, embora não houvesse documentos comprovando sua existência. No entanto, uma ata da Câmara Municipal de São Paulo, datada de 20 de junho de 1832, confirma a existência do local, mas não a prática de tortura. Situada no morro do Telégrafo, onde havia uma torre, a chácara operou durante o auge do ciclo do café em São Paulo.

Apesar de a escravidão ainda ser legal, a cidade se modernizava e seus dirigentes queriam projetar a imagem de uma metrópole civilizada, em contraste com a prática de castigos públicos comuns em outras partes do império, como no Rio de Janeiro. “Os vereadores paulistas queriam uma cidade ‘civilizada’, de bons modos, e, por isso, não é contraditório que não se castigasse publicamente, como se fazia em outras partes do império”, afirmou Rafael Mantovani, cientista social que estudou o sistema prisional da cidade no século 19.

O jornalista Ernani Silva Bruno, em seu livro “História e Tradições da Cidade de São Paulo”, detalha o que acontecia nessas propriedades clandestinas de castigo aos escravizados. “Para castigar os escravos capturados depois das fugas, ou mesmo para ‘ensinar’ aqueles que não serviam direito aos seus senhores brancos, havia algumas chácaras bem aparelhadas nas vizinhanças da cidade. Uma delas ficou tristemente famosa, e um de seus nomes nasceu de sua função nesse tempo: a do Telégrafo ou Quebra-Bunda”.

 

“Por ‘aparelhadas’, o cronista se referia a troncos onde os negros eram amarrados e submetidos a açoites, praticados por funcionários das chácaras. No caso da Quebra-Bunda, não se sabe de nenhuma atividade produtiva exercida naquele lugar, que parece ter funcionado apenas para torturas”, afirmou Bruno.

O cronista Antonio Egydio Martins, que escreveu entre 1905 e 1910 no Diário Popular, conseguiu localizar o ponto exato onde ficava a chácara do Quebra-Bunda, hoje ocupado por vias e prédios: “Entre as ruas dos Apeninos, Pires da Mota, Nilo e Paraíso”. Em seu livro “São Paulo Antigo: 1554-1910”, Martins mencionou que “disciplinavam-se os escravos, aplicando-lhes surras, gratuitamente e por amizade aos respectivos senhores, ou mediante pagamento aos proprietários”.

A chácara do Quebra-Bunda pertencia ao comerciante José Veloso de Oliveira(será que ele era um antepassado de João Veloso, pai de Caetano Veloso? Não sei) , que, ao que parece, aumentava seus rendimentos com esses “serviços” prestados.

por fim, cabe mencionar aqui:

A ata da Câmara Municipal de São Paulo, de 20 de junho de 1832, mostra que o proprietário da chácara do Quebra-Bunda tinha proximidade como o poder público, tanto assim que o local foi escolhido para guardar a pólvora da Fazenda Nacional.

Na ata, os vereadores falam de um “requerimento” dos moradores e proprietários das imediações da Casa da Pólvora, pedindo a remoção dela pelo iminente perigo de uma explosão.

“Resolveu-se levar ao conhecimento do excelentíssimo presidente da Província instando pela remoção já requisitada da pólvora pertencente à Fazenda Nacional ali existente, e apontando-se a casa do Telégrafo do Quebra-Bunda como própria ao depósito daquela pólvora”.

Para o pesquisador Renato Cymbalista, coordenador do grupo Lugares de Memória e Consciência (USP-CNPQ), a descoberta de locais ainda obscuros pela história oficial, como a chácara do Quebra-Bunda, traz avanços nas reflexões futuras.

“Se as políticas de patrimônio e memória só ficarem focadas naquilo que é consagrado pela história, que é monumental, seguiremos fazendo uma história conservadora e branca”, disse.

“Os lugares de memórias mais traumáticas nos ensinam sobre tensões e desigualdades do passado, muitas dessas tensões seguem não resolvidas no presente e precisam ser enfrentadas”.

Fonte: Folha de São Paulo, artigo: A Chácara Quebra- Bunda

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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