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Cármen Lúcia, o voto da maioria e o fim da impunidade de Bolsonaro: reflexões sobre 2026.

AI Brain

O Supremo Tribunal Federal formou maioria para condenar Jair Bolsonaro por cinco crimes, e a história se repete com ironias que não podem ser ignoradas. O homem que sempre bradou contra as instituições, que insultou ministros do STF, que tratou a democracia como obstáculo e não como valor, agora se vê aprisionado pelo mesmo Estado de Direito que tentou demolir. Mas há um detalhe que marca este momento com ainda mais força simbólica: o voto de Cármen Lúcia, ministra que consolidou a maioria e abriu caminho para a condenação. Uma mulher — num país onde o ex-presidente se notabilizou por discursos machistas, misóginos e humilhantes contra figuras femininas da política — foi quem garantiu que o julgamento se tornasse um divisor de águas.

O simbolismo de uma mulher contra o machismo bolsonarista

Cármen Lúcia já havia protagonizado momentos de peso na Corte, mas este voto possui uma carga simbólica incomparável. Bolsonaro nunca escondeu seu desprezo por mulheres na política: ridicularizou jornalistas, desrespeitou parlamentares, tentou reduzir Michele, sua própria esposa, ao papel de peça decorativa, e cultivou entre seus seguidores a ideia de que a liderança pertence ao masculino, ao bruto, ao “homem de verdade”. Que justamente uma ministra, em nome do Supremo, tenha se erguido para declarar a condenação do ex-presidente é um gesto que atravessa o campo jurídico e entra no campo da história.

É também um lembrete da força de resistência das mulheres em uma política brasileira marcada por exclusão de gênero. O voto de Cármen Lúcia não é apenas uma decisão técnica — é o símbolo de uma ruptura: um basta ao machismo autoritário que sempre sustentou o bolsonarismo.

A condenação e o cenário político

O impacto imediato da condenação é claro: Bolsonaro, já fragilizado eleitoralmente, passa a carregar um peso jurídico que o afasta de qualquer possibilidade concreta de disputar 2026. Ele se torna um fardo, ainda que um fardo capaz de mobilizar paixões. O mito da impunidade do líder da extrema direita foi quebrado. Isso não elimina sua base — mas a transforma. A narrativa de perseguição política será usada para incendiar a militância, mas o poder de articulação do bolsonarismo se enfraquece diante da impossibilidade do chefe disputar a Presidência.

Se o bolsonarismo perde o “messias” na urna, abre-se espaço para a luta interna: quem herdará esse espólio? A corrida já começou.

Os possíveis nomes de 2026

 

  1. Tarcísio de Freitas: governador de São Paulo, tem se posicionado como o sucessor natural do bolsonarismo moderado, ainda que sem o carisma de Bolsonaro. Seu perfil técnico e alinhamento econômico o tornam um candidato palatável para o mercado, mas sua falta de apelo popular pode ser um entrave.
  2. Michele Bolsonaro: a ex-primeira-dama encarna a tentativa de manter viva a chama bolsonarista dentro da própria família. Carrega o discurso religioso e moralista, aposta no público evangélico e no capital emocional herdado do marido. Mas enfrenta resistências internas, inclusive do próprio clã Bolsonaro, que pode não aceitar seu protagonismo.
  3. Eduardo Bolsonaro: o “03” representa a ala mais radical do bolsonarismo. Sua força está em setores mais ideológicos, como armamentistas e ultraconservadores. Porém, sua imagem pública desgastada e suas gafes frequentes podem torná-lo um candidato pouco competitivo em um cenário nacional.
  4. Outros nomes emergentes: figuras como Romeu Zema (Novo) podem tentar ocupar um espaço no campo da direita liberal, enquanto governadores aliados da pauta conservadora podem se arriscar numa candidatura. A fragmentação é inevitável.

A condenação de Bolsonaro acelera a disputa interna, porque cada um desses nomes sabe que a sucessão não pode esperar. Sem Bolsonaro na urna, a extrema direita precisa reinventar sua narrativa.

Lula e a necessidade da continuidade

No outro lado do tabuleiro, Lula encara um desafio igualmente grande. Sua reeleição é fundamental não apenas para dar continuidade ao projeto de reconstrução democrática, mas também para enfrentar a nova extrema direita que se formará no vácuo de Bolsonaro. O presidente tem pela frente a tarefa de manter sua base coesa, entregar resultados econômicos e sociais e, ao mesmo tempo, conter o discurso inflamado da oposição que ganhará ainda mais força com a narrativa de vitimização do ex-presidente condenado.

Se Lula conseguir encerrar seu mandato de forma sólida, pavimentará o caminho para um sucessor dentro de seu campo político. Mas se falhar, abre espaço para que o bolsonarismo — mesmo sem Bolsonaro — retorne com força em 2026.

O risco da polarização

A condenação do ex-presidente não encerra a polarização brasileira; ao contrário, tende a aprofundá-la. O bolsonarismo fará de Bolsonaro um mártir, transformando a prisão ou a condenação em símbolo de perseguição política. Esse movimento pode incendiar as ruas, radicalizar ainda mais os discursos e colocar em risco a própria estabilidade democrática.

O STF, ao cumprir seu papel, também assumiu um risco político. Mas era inevitável: não se podia permitir que crimes contra a democracia passassem impunes. A lição que fica é dura: a democracia brasileira ainda caminha sobre terreno instável, e cada passo precisa ser sustentado não apenas pelas instituições, mas também pela sociedade.

Uma nova fase da história

O voto de Cármen Lúcia ficará marcado como um dos momentos mais emblemáticos do Supremo. Uma mulher, diante de um país misógino e de um líder que sempre desprezou a igualdade de gênero, foi quem consolidou a condenação que pode mudar o rumo do Brasil. É uma vitória simbólica contra o machismo, contra o autoritarismo e contra a ideia de que a violência política é aceitável.

O futuro, porém, está em aberto. O bolsonarismo tentará se reinventar; a esquerda precisará se fortalecer. Entre os dois polos, uma sociedade dividida terá que decidir se continua refém da lógica do ódio ou se busca novos caminhos.

A condenação de Bolsonaro não é o fim da história. É apenas o começo de uma nova disputa — talvez ainda mais dura, ainda mais intensa. Mas, pela primeira vez em anos, a balança da justiça pesou contra aquele que sempre acreditou estar acima da lei.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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