Fim das bets: a quem interessa o retorno das apostas online?
No dia 25 de setembro de 2026, o presidente Lula assinou a Medida Provisória 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets em todo o país. Na prática, as casas de apostas deixaram de aceitar depósitos e as apostas esportivas e os jogos online foram interrompidos. A medida já produz efeitos concretos na vida de milhões de pessoas.
O que dizem os brasileiros
Uma semana depois, o Datafolha mostrou o tamanho do apoio a essa decisão. Segundo a pesquisa, 78% dos brasileiros são favoráveis à proibição das bets e dos cassinos online, contra 18% de contrários. O índice cresceu 13 pontos desde 2024 e é majoritário em todos os grupos analisados. Entre as mulheres, chega a 82%. Quando a pergunta se refere ao cassino online, como o “jogo do tigrinho”, a rejeição é ainda maior.
A audiência no STF e o risco de retorno

Ministro Fux
Mesmo com esse cenário, o debate caminha em outra direção. O ministro Luiz Fux, do STF, convocou uma audiência pública para 3 de novembro, às 10h, para discutir um possível acordo entre governo, empresas de apostas e clubes de futebol. Segundo a lista de convidados, vão falar dez clubes, a CBF, a AGU, o Ministério da Fazenda, a PGR e entidades do setor, como a ANJL, o IBJR e a AIGAMING. Cada participante terá até dez minutos.
A pergunta é inevitável: a quem interessa esse retorno?
O custo para as famílias
Não interessa às famílias. Quem convive com um apostador sabe o que a aposta online faz dentro de casa. São dívidas que se acumulam, salários que somem antes do fim do mês, relações que se desfazem e um vício apresentado como diversão no celular do filho, do pai ou da avó. A plataforma não tem horário de fechar. Ela está no bolso, à noite, quando ninguém está olhando. O estrago não aparece nos balanços das empresas, mas aparece na mesa da cozinha.
O bolso do trabalhador
Também não interessa ao trabalhador. Quem ganha salário mínimo e aposta na esperança de virar o jogo entrega parte da renda a uma indústria que lucra justamente com essa esperança. O dinheiro que deveria pagar o gás, a feira ou o aluguel sai da economia do bairro e vai para o caixa de operadoras distantes da realidade de quem perdeu.
Quem realmente ganha
Quem ganha de fato é o mercado de apostas. Ele tenta recuperar o espaço perdido, reconquistar patrocínios e voltar a ocupar camisas e intervalos de jogos. A aposta de quem defende o retorno é simples: convencer a população de que o futebol morre sem as bets e deixar que a pressão política faça o resto.
O argumento do futebol na balança
A preocupação com empregos e com as finanças dos clubes é legítima. Mas os números precisam aparecer. Um editorial do Estadão, citado pelo O Povo em setembro, comparou os cerca de R$ 1 bilhão investidos por bets em 13 clubes com os R$ 36 bilhões de receita bruta atribuída ao setor no período analisado. A conta mostra que os clubes representam uma fração pequena do negócio. Dá para discutir uma transição justa, com prazo e apoio aos clubes menores. Mas transição não pode ser pretexto para manter um modelo que já mostrou o estrago que causa.
Quem precisa estar na mesa
Uma audiência pública no Supremo deveria ouvir quem é afetado pelo problema, e não apenas quem lucra com ele. Ao reunir sobretudo clubes, a CBF, entidades do setor e órgãos de governo, o debate corre o risco de tratar como detalhe o outro lado da história: famílias endividadas, profissionais de saúde mental, quem atende dependentes e as entidades de defesa do consumidor. Essas vozes precisam estar presentes, porque a decisão afeta quem não vai estar sentado à mesa.
Uma decisão difícil e necessária
A decisão do governo foi uma escolha política difícil. Enfrentar um setor com forte poder econômico, grande presença na publicidade e influência sobre o esporte exige coragem. O desafio agora é fiscalizar com rigor e proteger a população, e não devolver ao público um problema que ele já pediu para ver resolvido.
Não se trata de ser contra o futebol nem contra a diversão de quem aposta de forma pontual e sem prejuízo. Trata-se de proteger a família brasileira de um produto desenhado para capturar renda, explorar fragilidades e viver da dependência. O Congresso ainda precisa votar a MP para que a medida ganhe vigência definitiva, e a sociedade pode participar desse processo.
Se o STF tiver de decidir entre o lucro de poucos e a proteção de muitos, a resposta já aparece nas pesquisas: 78% dos brasileiros se posicionaram. Agora cabe às instituições escutar essa maioria.