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Tiraram negros, indígenas e mulheres do retrato da Independência. O Brasil precisa conhecer o Brasil.

AI Brain

A história oficial brasileira construiu uma imagem conveniente da Independência. Um príncipe branco, montado a cavalo, ergue a espada às margens do Ipiranga e, quase como num passe de mágica, nasce uma nação. É uma narrativa poderosa, repetida em livros, monumentos e salas de aula. Mas o Brasil não nasceu de um único homem, muito menos de um único grito.

Enquanto o 7 de Setembro de 1822 formalizava a ruptura política com Portugal, a independência ainda estava longe de estar consolidada em todo o território. Na Bahia, tropas portuguesas continuavam em combate. Foi somente em 2 de julho de 1823, depois de uma guerra marcada pela mobilização popular, que as forças portuguesas deixaram Salvador. A Independência precisou ser conquistada.

Maria Felipa

E é justamente aí que aparecem personagens que o imaginário nacional empurrou para as margens. Pessoas negras, inclusive africanos e afrodescendentes, povos originários e mulheres participaram das lutas que sustentaram materialmente a ruptura colonial. Maria Felipa de Oliveira tornou-se um dos grandes símbolos dessa resistência popular baiana. Maria Quitéria rompeu as fronteiras impostas às mulheres de seu tempo para participar das forças brasileiras. Ainda assim, durante gerações, aprendemos a enxergar a Independência sobretudo pelo rosto de Dom Pedro.

Isso não acontece por acaso.

A memória nacional também é um território de poder. Quem escolhe os heróis de um país ajuda a determinar quem será reconhecido como sujeito de sua história. O pacto da branquitude, entendido como a reprodução de privilégios e referências que preservam a centralidade branca nas instituições e no imaginário social, também pode ser percebido na maneira como construímos nossos símbolos nacionais. A supremacia branca não opera apenas pela violência explícita. Ela também se reproduz quando algumas experiências são transformadas em universais enquanto outras são tratadas como notas de rodapé.

Reconhecer isso não significa substituir uma falsificação histórica por outra. O 7 de Setembro teve enorme importância política. O problema está em reduzi-lo a uma fotografia heroica e suficiente de um processo complexo. A Independência brasileira aconteceu por meio de disputas políticas, militares e sociais em diferentes regiões, e a Bahia ocupa um lugar incontornável nessa história.

Esse apagamento também ajuda a compreender o Brasil contemporâneo. Os grupos que historicamente aparecem menos nos monumentos continuam entre aqueles que precisam disputar mais intensamente o direito à representação, à renda, ao território e à dignidade. Quando trabalhadores hoje enfrentam jornadas exaustivas e movimentos reivindicam o fim da escala 6 por 1, reaparece uma pergunta antiga: quem trabalha para sustentar o país e quem recebe o reconhecimento por construí-lo?

Por isso, revisitar a Independência não significa atacar o Brasil. Significa conhecê-lo profundamente.

Tiraram negros, povos originários e mulheres do grande retrato nacional. Agora precisamos ampliar a moldura.

O Brasil precisa conhecer o Brasil.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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