Somos Deuses? Uma reflexão entre Neurociência, Espiritualidade e Identidade.

Eu postei recentemente um trecho de uma entrevista do Morgan Freeman onde ele faz afirmações que, para quem está em processo de despertar de consciência, ressoou de forma profundamente positiva e empoderadora. Mas como estamos inseridos neste jogo dinâmico onde muitas consciências colidem, surgiram também os comentários do tipo: “que esclerosado”, “nada a ver”, “que loucura” e por aí vai. Tudo isso porque Freeman afirmou: “Deus e eu somos a mesma pessoa. Não há separação. Eu acredito em mim, portanto, acredito em Deus. Isso basta.”

É curioso como uma pergunta aparentemente simples pode atravessar séculos e ainda causar incômodo, fascínio ou negação. “Você acredita em Deus?” é uma dessas. Mas e se a resposta correta estiver em outra direção? E se a questão essencial for: “Você acredita em você mesmo?”. Morgan Freeman, nessa entrevista memorável, desconstrói essa dualidade ao afirmar: “Deus sou eu. Eu acredito em mim.” A frase é impactante não apenas pelo peso simbólico de quem a disse, mas pelo conceito que carrega: a divindade não está fora, mas dentro.

Essa afirmação reverbera não apenas em tradições espirituais antigas, como o hermetismo, o hinduísmo e as filosofias africanas ancestrais, mas também encontra respaldo em abordagens contemporâneas da neurociência e da psicologia. Quando Freeman diz que acredita em si mesmo, ele toca uma compreensão elevada de identidade: a ideia de que a consciência é a matriz da realidade, e de que o divino não é acessado por rituais externos, mas pelo reconhecimento interno de quem verdadeiramente somos.

Neurocientistas como Joe Dispenza têm explorado justamente essa intersecção entre mente, crença e realidade. Em seu livro “O Poder do Subconsciente”, Dispenza mostra como nossos pensamentos e emoções moldam a nossa experiência física. Ele afirma que “a mente está sempre moldando a matéria”, e que quando você muda sua frequência mental, você muda o mundo que percebe. Isso não é diferente do que nos diz o ensinamento ancestral: “Vós sois deuses.”

Quando entendemos a divindade como um estado de consciência e não como uma entidade separada, começamos a quebrar os grilhões do pensamento religioso dogmático. A religião, historicamente, sempre buscou controlar a relação entre o ser humano e o sagrado, mediando esse contato com regras, estruturas e figuras de autoridade. No entanto, o despertar espiritual é solitário e revolucionário. Acreditar em si mesmo é declarar independência do sistema de crenças imposto.

O neurocientista Andrew Newberg, autor de “How God Changes Your Brain”, realizou estudos sobre os efeitos neurológicos da meditação e da oração, demonstrando que práticas espirituais não são apenas simbólicas, mas literalmente alteram a estrutura e a funcionalidade do cérebro. A sensação de conexão com o divino, relatada por místicos de todas as eras, é acompanhada por mudanças significativas nas áreas cerebrais ligadas à empatia, ao foco e ao bem-estar. Em outras palavras, “acreditar em Deus” é também uma experiência neurobiológica – mas a chave está em como definimos esse “Deus”.

Se Deus é a força criadora, e essa força está presente em cada átomo do universo, então nós somos manifestações individuais dessa força. O que Morgan Freeman faz é traduzir em palavras simples uma verdade complexa: somos parte do Todo. Quando nos reconhecemos como tal, deixamos de procurar fora aquilo que já está dentro. O autoconhecimento passa a ser um ato sagrado. A jornada espiritual é uma viagem de volta ao centro de si.

O psicólogo Carl Jung dizia: “Aquele que olha para fora, sonha. Aquele que olha para dentro, desperta.” Esta é uma das chaves dessa nova visão espiritual: o reconhecimento de que a realidade é um espelho, e tudo o que vemos no mundo exterior são reflexos das nossas crenças, memórias, emoções e intencionalidades. Quando acreditamos que somos pequenos, indignos ou separados do divino, criamos uma vida fragmentada. Quando acreditamos que somos a própria extensão da inteligência criadora, nossa experiência muda completamente.

É importante lembrar que essa compreensão não exclui a existência do mistério, do incognoscível ou do inefável. Ao contrário, reconhecê-lo em nós mesmos é uma forma de reverência. É como olhar para o universo e perceber que ele não está apenas lá fora – ele pulsa aqui dentro. Nossos pensamentos, quando intencionais, moldam frequências. Nossas emoções, quando equilibradas, sintonizam realidades. Nossas escolhas, quando conscientes, são atos de criação divina.

Talvez essa seja a verdadeira “imagem e semelhança” a que o texto bíblico se refere: não física, mas vibracional. Não literal, mas essencial. Somos seres moldáveis, multidimensionais, criadores. E essa consciência está emergindo, em muitos lugares ao mesmo tempo, como um novo despertar coletivo.

A fala de Morgan Freeman, portanto, não é apenas um posicionamento pessoal. É um convite. Um lembrete. Uma semente. Cabe a cada um de nós escolher se a rega ou a rejeita. Se seguimos vivendo como marionetes de sistemas externos ou assumimos o comando interno como deuses em treinamento.

No fim, acreditar em Deus talvez não seja uma questão de dogma, mas de coragem. Coragem de olhar para dentro. Coragem de acreditar em si. Coragem de lembrar que você já é tudo aquilo que busca. Porque o verdadeiro templo é você. E Deus, talvez, esteja só esperando que você finalmente se reconheça no espelho como uma divindade que você é.

Você acredita em você? Acredita que você é capaz de realizar o seus sonhos mais ambiciosos?

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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