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Quem é Tânia Maria, a artesã que conquistou o cinema brasileiro depois dos 70

AI Brain

Fiquei encantado. Brasil também ficará cada vez mais.

A trajetória de Tânia Maria é uma daquelas histórias que parecem simples na superfície, mas que dizem muito sobre o país, sobre o cinema e sobre como o valor artístico nem sempre nasce dentro das rotas oficiais da cultura. Artesã, costureira, criadora de tapetes com materiais reaproveitados, moradora do interior do Rio Grande do Norte, Tânia viveu a maior parte da vida longe de qualquer circuito artístico institucional. Ainda assim, foi justamente dessa vida fora do eixo que surgiu uma das presenças mais marcantes do cinema brasileiro recente.

Ela estreou no cinema já na terceira idade, aos 72 anos, em Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles lançado em 2019. Sua participação era pequena, quase silenciosa, mas suficiente para chamar atenção. Não por efeitos dramáticos ou performance elaborada, mas por algo mais raro. Presença. Verdade. Um tipo de naturalidade que não se constrói em laboratório, nem se ensina em curso. Aquela aparição breve funcionou como um prenúncio.

Tânia Maria, 2026

Esse prenúncio se realiza plenamente em O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025. A obra se passa em 1977, durante a ditadura militar, e acompanha a trajetória de um professor interpretado por Wagner Moura que tenta escapar de seu passado e se esconde no Recife. A cidade não é apenas cenário, mas corpo vivo da narrativa, atravessada por vigilância, medo, silêncios e pequenas formas de resistência cotidiana.

Dentro dessa arquitetura política e afetiva do filme, Tânia Maria interpreta Dona Sebastiana, gerente de um edifício que se transforma em refúgio para pessoas perseguidas. Sua personagem não protagoniza grandes conflitos nem discursos. Ela existe ali como alguém que cuida, observa, acolhe, sustenta. E essa função aparentemente modesta é justamente o que dá densidade humana à narrativa. Em meio à opressão, ao controle e à paranoia do período, é essa figura discreta que devolve ao filme algo essencial, a ideia de que a vida continua mesmo sob pressão, que ainda há gestos de cuidado possíveis, que ainda há humanidade circulando.

O Agente Secreto constrói sua força exatamente nesse equilíbrio entre política e intimidade. Não é um filme de slogans nem de lições explícitas. Ele trabalha com atmosferas, memórias, ruídos do passado que ainda reverberam no presente. A presença de Tânia Maria opera como uma âncora ética e emocional dentro dessa estrutura. Ela não representa um papel no sentido tradicional, ela oferece um corpo que carrega história, tempo, marcas de vida. Isso produz um efeito de verdade que nenhuma técnica isolada consegue substituir.

Esse impacto foi percebido também fora do Brasil. A atuação de Tânia foi mencionada por veículos internacionais especializados, que destacaram sua força expressiva e sua singularidade. Seu nome começou a aparecer em listas, debates e comentários sobre possíveis indicações em premiações internacionais, inclusive como candidata a reconhecimento em grandes festivais e premiações globais. Mais do que isso, passou a ser vista como símbolo de uma certa vitalidade do cinema brasileiro, que ainda é capaz de revelar vozes, rostos e histórias fora do padrão dominante.

Há algo de profundamente simbólico no fato de que uma mulher que passou a vida criando objetos artesanais em silêncio se transforme agora em referência cinematográfica internacional. Isso fala sobre o cinema, mas fala também sobre o Brasil. Um país em que talentos existem em abundância, mas que muitas vezes ficam invisíveis por não se encaixarem nas engrenagens do mercado, da mídia ou da centralização cultural. A história de Tânia Maria expõe esse paradoxo de forma delicada e contundente.

Ela também desloca nossas ideias sobre tempo, começo e valor. A lógica dominante sugere que tudo precisa acontecer cedo, rápido, dentro de janelas muito estreitas de oportunidade. Tânia desmonta isso apenas existindo. Sua trajetória mostra que há maturações longas, silenciosas, que existem processos que levam décadas para se tornarem visíveis e que isso não diminui sua força, pelo contrário, amplia.

O cinema brasileiro ganha muito com isso. Ganha não apenas uma atriz, mas uma presença que traz outras camadas de realidade para a tela. Ganha uma figura que aproxima a arte da vida comum, do Brasil real, das pessoas que raramente aparecem como centro das histórias. Ganha também um lembrete de que a cultura não nasce só nos grandes centros, nem apenas entre quem teve acesso a formação formal ou capital simbólico. Ela nasce onde há vida pulsando.

O Agente Secreto se inscreve, assim, como mais do que um filme sobre o passado político do país. Ele é também um filme sobre memória, sobre permanência, sobre as pessoas que sustentam o mundo enquanto os grandes conflitos acontecem. E dentro dessa proposta, Tânia Maria ocupa um lugar fundamental.

Seu sucesso não é apenas individual. Ele funciona como espelho e como convite. Espelho para um país que precisa aprender a reconhecer seus próprios tesouros humanos. Convite para que o cinema, a cultura e as instituições ampliem seus olhares e seus critérios de valor.

Fiquei encantado com essa descoberta. E tudo indica que o Brasil também ficará, cada vez mais. Não apenas por Tânia Maria, mas por tudo o que ela representa. Uma arte que nasce da vida, uma vida que se transforma em arte e um país que, quando olha com mais cuidado para si, encontra riquezas onde menos esperava.

Viva o cinema Brasileiro 💚❤️🖤

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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