Vergonha, é o que sinto. Total vergonha de ver tanta submissão por parte de quem, em tese, deveria defender a própria história. Ver Snoop Dogg confessando publicamente que aceitou Jesus, o lutador Anderson Silva dizendo que vai se tornar policial, e tantas outras bizarrices. Malcolm X deve estar se revirando no túmulo. Porque isso que estamos vendo não é fé, nem amadurecimento espiritual, nem conciliação social. É capitulação. É a velha pedagogia da obediência funcionando em tempo real, agora em alta definição, com filtro bonito, patrocinador e aplauso de plateia.
A cena dressed lutador afro-americano ajoelhado diante de Donald Trump não é um gesto isolado. É um símbolo. É a imagem perfeita de uma ordem que não precisa mais de chicote, porque conseguiu algo muito mais eficiente: produzir desejo pela própria coleira. Quando o dominado começa a admirar o dominador, quando passa a imitá-lo, defendê-lo, justificá-lo, algo mais profundo que a política foi capturado. A imaginação. A autoestima coletiva. O senso de dignidade.
E isso não está acontecendo só nos Estados Unidos. Está acontecendo no mundo inteiro. A extrema direita global oferece uma promessa sedutora: pertencimento. Um lugar na mesa. Um crachá simbólico de “eu também faço parte disso”. E muita gente aceita. Aceita ser a exceção tolerada. Aceita ser o exemplo conveniente. Aceita ser usado como vitrine para provar que o sistema não é excludente, enquanto ele continua funcionando exatamente como sempre funcionou.
O discurso é sempre o mesmo. Agora é diferente. Agora há espaço para todos. Agora não existe mais opressor e oprimido, só indivíduos. Agora é só mérito, esforço, fé, disciplina. O problema é que essa história é velha. Velha como o mundo moderno. Velha como os impérios. Velha como a escravidão. Velha como a colonização. Velha como toda ideologia que tenta apagar estruturas dizendo que só existem escolhas pessoais.
Quando figuras públicas abraçam esse discurso, o dano é imenso. Porque não afeta só quem fala. Afeta milhões que assistem. Que se veem ali representados. Que pensam: se ele conseguiu, eu também consigo. Se ele foi aceito, eu também posso ser. E não percebem que o preço da aceitação é o silêncio. É a anestesia crítica. É a renúncia à própria memória.
O que está em jogo aqui não é Trump como indivíduo. É o projeto que ele representa. Um projeto de mundo que naturaliza desigualdades, glorifica hierarquias, romantiza violência, espiritualiza obediência e transforma dominação em virtude. Um projeto que precisa desesperadamente de rostos diversos para parecer menos brutal do que é.
Por isso dói tanto ver pessoas que deveriam ser farol virarem vitrine. Pessoas que poderiam abrir caminhos virarem selo de legitimação de um sistema que segue esmagando os mesmos de sempre. Isso não é ascensão. É cooptação. Não é liberdade. É adaptação. Não é vitória. É rendição com aplausos.
E o mais cruel é que o sistema ainda vende isso como sucesso. Como maturidade. Como superação. Como evolução. Quando na verdade é só mais uma volta do mesmo ciclo antigo. O ciclo onde o poder muda de roupa, mas nunca de lógica.