Por Wanderson Dutch
A história não avisa quando vira. Ela vira. De repente. Silenciosa como o bater de asas de uma borboleta que altera o curso do tempo. E nessa terça-feira, virou. O Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, transformou Jair Bolsonaro em réu. Junto a ele, outros sete nomes que orbitavam o coração sombrio de uma tentativa golpista que agora começa a ser desnudada em praça pública.
O que era dito nas entrelinhas, sussurrado nos corredores do poder e denunciado por vozes muitas vezes desacreditadas, agora está nas atas oficiais: houve trama. Houve intenção de ruptura. Houve o desejo explícito de romper com a Constituição, rasgar o pacto democrático (ou o que restava dele), e empurrar o Brasil para o abismo da exceção.
O ex-presidente, que tanto encenou uma masculinidade agressiva, agora se vê diante da frieza da Justiça. Não como mártir, mas como réu. A capa de mito se desfaz. O que emerge é o homem nu diante da verdade jurídica. Não se trata apenas de um julgamento técnico — embora seja isso também. Trata-se de um rito simbólico de limpeza histórica. De depuração institucional. De justiça restaurativa diante de um país ferido.
Esse episódio marca mais do que a responsabilização de indivíduos. Ele representa a falência de uma narrativa: a da impunidade como norma para os poderosos. Pela primeira vez na história brasileira, um presidente da República é formalmente acusado de tentar derrubar a democracia depois de perder uma eleição. Isso não é apenas notícia — é capítulo.
A votação unânime dos ministros do STF também sinaliza algo além da tecnicalidade: há um pacto sendo restaurado. Um pacto de civilidade, de respeito à Constituição, de freios aos delírios autoritários. O Supremo, tantas vezes criticado (com razão ou sem), decidiu levantar a cabeça e dizer: até aqui. Não mais.
Mas há algo mais profundo ainda neste momento. O Brasil não está apenas julgando Bolsonaro e seus comparsas — está se olhando no espelho. Está encarando o próprio flerte com o autoritarismo, sua paixão pelo messianismo, sua compulsão por soluções fáceis encarnadas em homens de farda ou frases de efeito. O país precisa, agora, romper com esse ciclo. Não com ódio, mas com lucidez.
Esse processo também desafia a nós, cidadãos. Não basta que a justiça faça sua parte. É preciso que a sociedade também a faça. Que compreenda que a democracia não é um sistema automático. Ela precisa ser cuidada, protegida, ensinada. Não é só nas urnas que ela vive — mas na memória, na educação, na cultura, na imprensa livre e na coragem cotidiana de dizer não ao retrocesso.
O julgamento que se inicia é longo. Haverá apelações, disputas, retóricas inflamadas. Mas o fato jurídico está firmado: Jair Bolsonaro é réu por tentativa de golpe. Isso não é pequeno. É imenso. É, talvez, o início de um outro Brasil — menos ingênuo, mais vigilante.
E que fique registrado: não se trata de vingança. Trata-se de justiça. E justiça, como ensinavam os antigos, é o que torna possível a convivência humana em tempos de sombra.
Que esse momento seja um marco. Que nossas gerações futuras possam olhar para trás e dizer: ali começou o fim de uma ilusão. E o renascimento de um país mais consciente de si.