Oi Quem nunca esteve apaixonado por alguém ou por alguma coisa, não é mesmo? O amor, essa força avassaladora, já foi tema de poesias, músicas e até de grandes batalhas ao longo da história. Mas o que a ciência tem a dizer sobre isso? O que acontece no nosso cérebro quando somos tomados por esse sentimento?
Lembro bem de quando um vídeo do neurocientista Pedro Calabrez viralizou na minha antiga página O Martelo de Nietzsche (que, aliás, ainda está em disputa na justiça após ter sido removida arbitrariamente em 2022, sem qualquer justificativa). Esse vídeo, publicado em 2018, alcançou mais de 3 milhões de visualizações e tinha um título provocativo: “O cérebro apaixonado”. O sucesso do vídeo mostra como esse tema desperta fascínio e curiosidade. Caso queira conferir, basta pesquisar no YouTube.
Mas vamos ao que interessa: o que a ciência descobriu sobre esse estado quase hipnótico em que nos encontramos quando estamos apaixonados? A resposta está na neurociência e na psicologia, que há décadas estudam os efeitos do amor no cérebro humano. E aqui entra uma questão importante: estar apaixonado por uma pessoa e estar apaixonado por um projeto ou uma ideia provocam os mesmos processos cerebrais? A resposta é um sonoro “sim e não”. As semelhanças existem, mas há diferenças cruciais.
O amor romântico, por exemplo, tem um impacto bioquímico profundo, ativando neurotransmissores e estruturas cerebrais específicas, enquanto a paixão por um objetivo de vida pode acionar mecanismos semelhantes, mas com diferenças notáveis. Vamos explorar o que a ciência já revelou sobre isso e entender por que nos sentimos tão intensamente envolvidos quando o amor — seja por alguém ou por algo — nos invade.
O que acontece no cérebro apaixonado?
A paixão é, essencialmente, uma dança de neurotransmissores e hormônios que nos coloca em um estado alterado de consciência. Um dos primeiros pesquisadores a estudar esse fenômeno foi Helen Fisher, uma renomada antropóloga biológica da Universidade Rutgers. Em seu livro Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love (2004), Fisher explica que o cérebro apaixonado ativa intensamente o sistema de recompensa, liberando grandes quantidades de dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação.
Quando estamos apaixonados, o circuito dopaminérgico, especialmente na área tegmental ventral e no núcleo accumbens, dispara de maneira intensa. Essas regiões são as mesmas ativadas quando usamos drogas como cocaína. Isso explica por que a paixão pode ser viciante — e também dolorosa quando interrompida. O amor romântico cria um ciclo de recompensa e expectativa, nos deixando eufóricos, impulsivos e, às vezes, irracionais.
Além da dopamina, há um aumento significativo na ocitocina e na vasopressina, hormônios associados ao vínculo e à conexão emocional. A ocitocina, em particular, é chamada de “hormônio do amor” porque fortalece os laços sociais e a sensação de segurança. É por isso que, quando estamos apaixonados, sentimos uma necessidade quase incontrolável de estar perto da pessoa amada, como se nossa vida dependesse disso.
Mas há outro lado nessa química toda: o cérebro apaixonado também reduz a atividade do córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento crítico e pela tomada de decisões racionais. Ou seja, quando estamos apaixonados, tendemos a ignorar os defeitos da outra pessoa e a supervalorizar suas qualidades — um fenômeno conhecido como idealização amorosa.
E quando a paixão é por um projeto ou um sonho?
Agora, e se estivermos apaixonados por um projeto, uma ideia ou um propósito de vida? Será que o cérebro reage da mesma forma? Estudos indicam que, de fato, há semelhanças. Quando nos dedicamos intensamente a um objetivo, nosso sistema de recompensa também entra em ação, liberando dopamina e gerando a mesma sensação de motivação intensa e prazer.
Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology (2019) mostrou que a paixão por um projeto ativa regiões cerebrais relacionadas à motivação e ao senso de propósito, como o córtex pré-frontal medial e o estriado ventral. Essas áreas são responsáveis por planejar ações futuras e manter a persistência mesmo diante de desafios. É por isso que pessoas apaixonadas por seus trabalhos ou objetivos muitas vezes se sentem energizadas e resilientes, mesmo quando enfrentam dificuldades.
No entanto, a principal diferença entre a paixão romântica e a paixão por um objetivo está na ausência de ocitocina e vasopressina, que são cruciais para criar vínculos interpessoais. Quando amamos alguém, queremos proximidade física e conexão emocional; quando estamos apaixonados por uma ideia ou meta, nossa motivação é impulsionada mais pela realização pessoal e pela sensação de conquista.
A paixão e seus altos e baixos
O amor e a paixão, sejam direcionados a uma pessoa ou a um propósito, também podem ter efeitos negativos. O mesmo mecanismo que nos faz sentir eufóricos pode, quando rompido, nos levar a estados de angústia, ansiedade e até sintomas depressivos. Quando um relacionamento termina, por exemplo, o cérebro experimenta algo semelhante a uma abstinência química. Estudos de neuroimagem, como os conduzidos por Lucy Brown, neurocientista do Albert Einstein College of Medicine, mostram que a falta do objeto amado desativa circuitos de recompensa, levando a sentimentos de vazio e dor emocional intensa.
O mesmo pode acontecer quando um projeto pelo qual estávamos apaixonados falha ou se torna inviável. O cérebro, que estava acostumado a uma alta dopaminérgica, sofre uma espécie de “queda”, reduzindo sua atividade nas áreas responsáveis pelo prazer e pelo entusiasmo. Isso pode levar a um estado de desmotivação e até mesmo à procrastinação.
A paixão, seja por alguém ou por algo, é um fenômeno poderoso e complexo, impulsionado por uma orquestra de neurotransmissores e circuitos cerebrais. O amor romântico ativa intensamente o sistema de recompensa, inundando nosso cérebro de dopamina e ocitocina, enquanto a paixão por um objetivo segue caminhos semelhantes, mas com nuances diferentes.
Entender esses processos pode nos ajudar a navegar melhor pelo mar de emoções que o amor e a motivação nos proporcionam. E mais do que isso: pode nos permitir usar essa energia a nosso favor, canalizando a paixão para relações mais saudáveis e objetivos que realmente fazem sentido para nós.
Se você quer se aprofundar mais nesse tema, recomendo a leitura de Why We Love, de Helen Fisher, ou o documentário The Brain with David Eagleman, que explora de forma fascinante os mecanismos do cérebro humano. Afinal, entender como funcionamos é o primeiro passo para viver com mais consciência — e talvez, quem sabe, amar de forma mais equilibrada.