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O cinismo da imprensa nacional tem nome, data e manchete.

AI Brain

Nos últimos dias, a velha imprensa brasileira voltou a vestir sua fantasia de defensora da democracia. Com editoriais inflamados, manchetes dramáticas e analistas “neutros” tentando parecer sensatos, os veículos mais influentes do país — como Globo, Folha, Estadão, UOL e companhia — passaram a sugerir que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, estaria “exagerando” em suas decisões contra Jair Bolsonaro. As palavras “censura”, “autoritarismo” e “liberdade de expressão” voltaram a circular com força nas páginas da mídia corporativa.

Mas o que está por trás desse discurso? Por que, de repente, tantos colunistas, jornalistas e editores se mobilizaram para defender o direito de fala de um ex-presidente que debochou da pandemia, incentivou aglomerações, espalhou desinformação em escala industrial, e — segundo investigações da própria Justiça — atuou diretamente para sabotar as instituições do país com golpe de estado? 

O que está em jogo aqui não é liberdade. É narrativa. E a imprensa nacional, mais uma vez, escolheu o lado do cinismo e da hipocrisia.

Censura seletiva: o silêncio de 2018

Vamos voltar a 2018. Luiz Fux, então no plantão do Supremo Tribunal Federal, proibiu a Folha de S.Paulo de entrevistar Lula, que estava preso. Uma decisão escancaradamente inconstitucional, considerada censura prévia por juristas sérios do país. Naquele momento, a mídia tradicional não fez escândalo. Não houve coletiva. Não houve indignação coletiva. Não houve editorial com letras garrafais falando de “liberdade de expressão”.

Sabe por quê? Porque a vítima era Lula. E a narrativa dominante da época era: “Não podemos deixar o PT voltar ao poder.” A censura, quando atinge o campo progressista, é tolerada, suavizada, muitas vezes até aplaudida. Quando atinge a extrema-direita, ela vira um ataque à democracia. Aí o “jornalismo imparcial” veste preto e faz vigília na redação.

Humanizar um projeto de destruição

Não é de hoje que a imprensa tenta reabilitar a imagem de Jair Bolsonaro. Desde que deixou a presidência, e principalmente após o 8 de janeiro, tem havido um esforço evidente de suavizar sua imagem. Ele, que passou quatro anos atacando jornalistas, ameaçando repórteres, debochando de mortos e zombando da dor alheia, agora é tratado como uma “figura polêmica” que merece espaço para se defender.

Como é possível falar de liberdade de expressão para alguém que proibiu a divulgação de dados da pandemia, atacou cientistas, sabotou vacinas e fez piada com pessoas morrendo por falta de oxigênio?

Mais de 700 mil pessoas morreram na pandemia da Covid-19 no Brasil, muitas delas em decorrência direta da negligência deliberada do governo Bolsonaro. E agora, essa mesma imprensa que fez corpo mole diante desse genocídio, ousa defender que ele seja ouvido, que “não se deve calar ninguém”, que “censura não é o caminho”.

Vamos deixar claro: não se trata de censura. Trata-se de responsabilidade.

Liberdade de expressão não é salvo-conduto para o crime

A Constituição garante a liberdade de expressão — mas não garante impunidade para discursos que atentam contra a democracia, propagam mentiras deliberadas e estimulam golpes de Estado. Jair Bolsonaro está sendo investigado não por opinar, mas por ter arquitetado, financiado e alimentado uma tentativa de subverter a ordem institucional brasileira.

Comparar isso com liberdade de imprensa ou direito à manifestação é uma distorção grotesca do debate público.

Mas o que faz a imprensa tradicional diante disso? Corre para defender o “direito” de um golpista confesso de continuar mentindo ao vivo para milhões, de manipular emocionalmente sua base, de posar de vítima enquanto as instituições tentam responsabilizá-lo.

A mesma mídia que silenciou quando Marielle Franco foi executada.

A mesma mídia que tratou as mortes da pandemia como estatística.

A mesma mídia que normalizou o caos.

A quem serve esse jornalismo?

Jornais como Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo não são neutros. Nunca foram. São empresas privadas, com interesses econômicos, alinhamentos editoriais e pactos com o sistema. E o sistema — este mesmo que prendeu Lula sem provas e permitiu a ascensão de Bolsonaro — agora tenta reequilibrar o jogo sem perder o controle.

Quando Alexandre de Moraes impõe limites às manifestações públicas de Bolsonaro, o que está fazendo é proteger o Estado de Direito. Mas para a imprensa tradicional, isso é inaceitável. Porque desmonta o teatro do “equilíbrio entre os poderes” que eles fingem defender. A mídia, no fundo, tem medo de que a Justiça avance demais. De que acerte na jugular do bolsonarismo. De que revele seus patrocinadores. De que atinja quem sempre lucrou com o caos.

O editorialismo da conveniência

Repare como os editoriais se comportam:

  • Quando um general ameaça o STF, “é preocupante, mas precisa ser compreendido”.
  • Quando Lula critica o Banco Central, “é uma afronta às instituições”.
  • Quando Bolsonaro manda invadir o Congresso, “é preciso ouvir os dois lados”.
  • Quando o Judiciário impõe limites, “estamos diante de um autoritarismo togado”.

Dois pesos. Dois discursos. Um cinismo só.

Essa imprensa que hoje pede “moderação” foi a mesma que ajudou a criar o monstro. Que deu espaço para fake news. Que relativizou tortura. Que chamou o golpe de 1964 de “movimento”. Que tentou transformar Sergio Moro em herói nacional — e depois, como quem muda de roupa, o abandonou em silêncio.

Eles não estão preocupados com a democracia. Estão preocupados com a própria credibilidade — que escorre pelas mãos a cada novo editorial cínico.

O povo não esquece

As redes sociais, a imprensa popular e os meios alternativos de informação mostraram que a sociedade civil não caiu nessa farsa. A tentativa de romantizar Bolsonaro, de colocá-lo no mesmo patamar de figuras democráticas, fracassou entre quem viu parentes morrerem por falta de atendimento, entre quem foi humilhado por agrotóxicos, por arma, por racismo e por fome.

Não existe liberdade para quem quer acabar com a liberdade. Não existe expressão legítima quando o que se expressa é ódio, mentira, sabotagem e golpismo.

O que a mídia tradicional chama de “liberdade de expressão” é, na verdade, o último respiro de um sistema desesperado para manter alguma aparência de controle diante de sua própria ruína ética.

A história vai lembrar

A imprensa que hoje protege Bolsonaro será lembrada como cúmplice. Como aquela que teve todos os meios, todas as plataformas, todos os recursos — e mesmo assim escolheu o lado da mentira.

A imprensa que silenciou diante de Fux, mas grita contra Moraes.

A imprensa que ignorou a morte de milhares, mas se sensibiliza com um político impedido de dar entrevista.

A imprensa que não tem coragem de admitir que perdeu a moral.

E para encerrar…

Não se trata de defender Moraes, Lula, PT, STF ou qualquer partido. Trata-se de denunciar a hipocrisia.

A democracia não sobrevive com jornalismo de conveniência.

Liberdade de expressão não é salvo-conduto para o crime.

E quem relativiza o bolsonarismo com discursos bonitos sobre direitos está ajudando a preparar o próximo golpe.

Hipócritas malditoso!

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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