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Jomo Kenyatta e o método colonial de apagar povos inteiros

AI Brain

Jomo Kenyatta e a libertação como consciência política

Jomo Kenyatta não pode ser lido apenas como o primeiro presidente do Quênia. Reduzi-lo a um cargo institucional é repetir, ainda que sem perceber, a lógica colonial que transforma processos profundos em datas, cargos e cerimônias. Kenyatta foi, antes de tudo, um pensador formado dentro de um sistema opressor e que decidiu enfrentá-lo usando as próprias ferramentas do poder colonial, sem jamais se submeter a ele.

Nascido em um território violentamente reorganizado pelo domínio britânico, Kenyatta cresceu em meio à destruição deliberada das estruturas políticas, culturais e espirituais do povo kikuyu. O colonialismo britânico no Quênia não se limitou à ocupação territorial. Ele desmontou formas de organização comunitária, impôs uma economia de expropriação e tentou redefinir o que era conhecimento legítimo. Nesse contexto, resistir não era apenas pegar em armas. Era também preservar a capacidade de pensar a si mesmo fora das categorias do colonizador.

Kenyatta entendeu isso cedo. Sua ida à Europa não foi uma busca por validação, mas uma estratégia. Ele estudou antropologia, política e economia exatamente para desmontar o discurso científico que sustentava a dominação. Enquanto muitos intelectuais europeus descreviam sociedades africanas como primitivas, Kenyatta escrevia Facing Mount Kenya para mostrar que havia ali sistemas complexos de governo, ética, educação e espiritualidade. O livro é uma resposta direta à ideia de que o colonialismo teria sido um “presente civilizatório”.

O ponto central do pensamento de Kenyatta é simples e radical: não existe libertação política sem libertação mental. Um povo convencido de que sua história começa com a chegada do colonizador já perdeu metade da batalha. Por isso, sua atuação sempre transitou entre o campo político e o simbólico. Ele falava de terra, de soberania, de autogoverno, mas também falava de dignidade, identidade e memória.

Essa postura o colocou inevitavelmente em rota de colisão com o Império Britânico. Nos anos 1950, durante a revolta Mau Mau, Kenyatta foi preso e acusado de liderar um movimento que os britânicos classificavam como bárbaro e terrorista. Hoje se sabe que essa narrativa serviu para justificar prisões em massa, campos de detenção e torturas. Kenyatta passou anos encarcerado não por crimes comprovados, mas porque representava uma ameaça intelectual e política real ao projeto colonial.

Sua prisão revela um padrão clássico dos sistemas opressores: quando a violência física não basta, tenta-se criminalizar a ideia. Kenyatta se tornou perigoso não apenas por mobilizar pessoas, mas por oferecer um vocabulário para que o povo compreendesse sua própria condição histórica. Ele ensinava que o colonialismo não era um acidente, nem fruto de inferioridade interna, mas um projeto organizado de saque e controle.

Com a independência do Quênia, em 1963, Kenyatta assume a presidência e enfrenta o dilema que atravessa quase todos os processos de libertação nacional. Como governar um Estado moldado pelo colonizador sem reproduzir suas estruturas? Como transformar uma máquina pensada para dominar em um instrumento de emancipação? Suas decisões, como as de qualquer líder nesse contexto, foram atravessadas por contradições, tensões internas e limites históricos.

Ainda assim, sua importância não está na idealização, mas no legado. Kenyatta deixou claro que independência não é um evento, é um processo. Que a retirada da bandeira estrangeira não significa o fim da dominação se as mentalidades continuarem colonizadas. Sua crítica à dependência econômica, à educação alienada e à perda da centralidade comunitária segue atual em sociedades que formalmente são soberanas, mas continuam subordinadas a interesses externos.

Ler Jomo Kenyatta hoje é um exercício incômodo e necessário. Ele obriga o leitor a encarar o colonialismo não como passado encerrado, mas como uma estrutura que se adapta, muda de linguagem e se reinventa. Sua obra e trajetória mostram que resistência não é apenas reação, é elaboração consciente. É construir pensamento próprio em um mundo que insiste em negar essa possibilidade.

Kenyatta permanece como referência porque compreendeu algo essencial: sem controle sobre a própria história, não há controle sobre o futuro. E nenhum sistema opressor cai apenas por desgaste. Ele precisa ser compreendido, nomeado e enfrentado em todas as suas dimensões.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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