Somente no mundo idealista, romântico, é que as pessoas de poder e de alcance não se encontram, não sentam nas mesmas mesas, não conversam sobre interesses. No mundo real, especialmente dentro da lógica do capitalismo global, os mais poderosos conversam com os mais poderosos. Os mais ricos circulam entre os mais ricos. Os mais influentes politicamente frequentam os mesmos ambientes que outros igualmente influentes. Isso não é necessariamente uma conspiração. Muitas vezes é apenas o funcionamento natural das elites políticas, econômicas e institucionais.
A notícia de que uma degustação de whisky Macallan em um clube de luxo em Londres reuniu nomes como Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ricardo Lewandowski, Benedito Gonçalves e Hugo Motta gerou enorme repercussão nas redes sociais. Imediatamente surgiram interpretações de todos os tipos, desde questionamentos legítimos sobre proximidade entre poder econômico e autoridades públicas até teorias conspiratórias que tentam transformar um encontro social em prova automática de irregularidade.
Quando falamos de pessoas de poder, estamos falando de pessoas influentes. Elas circulam nos mesmos ambientes, ora por interesses institucionais, ora simplesmente porque existem espaços no mundo que são frequentados por um grupo muito restrito de pessoas. Restaurantes exclusivos, clubes privados, fóruns internacionais e eventos fechados costumam ser ambientes nos quais o acesso não depende apenas de convite, mas também de capital, prestígio ou posição institucional. O capitalismo, de certa forma, também organiza e segrega esses espaços. Nem todos entram. Nem todos participam.

Autoridade brasileira em reunião em Londres.
Isso não significa necessariamente alinhamento ideológico entre todos os presentes. O mundo está cheio de exemplos que mostram exatamente o contrário. Recentemente, por exemplo, Beyoncé e Jay-Z foram fotografados em um jantar de alto nível com diversas figuras influentes. Em determinado momento do evento, a filha de Donald Trump também aparecia sentada próxima a eles. Isso significa que Beyoncé se tornou trumpista? Evidentemente não. A própria cantora já se posicionou publicamente contra Trump e declarou apoio a Kamala Harris em disputas políticas nos Estados Unidos.

Filha do Trump
No mundo real, muitas dessas interações são apenas o que empresários e políticos costumam chamar de “just business”, apenas negócios ou relações institucionais. O problema é que grande parte da sociedade, formada dentro de uma cultura moral fortemente influenciada por valores cristãos, tende a interpretar esses encontros sempre dentro de uma lógica moralista de pureza e traição ideológica. No entanto, quando o assunto é poder e dinheiro, a realidade costuma ser muito mais pragmática do que moral.
Há inúmeros exemplos disso. Outro dia Lionel Messi foi fotografado ao lado de Donald Trump. Em outro momento, artistas como Nicki Minaj fizeram declarações que foram interpretadas como aproximações políticas inesperadas. A partir desses episódios, muitas pessoas tentam criar narrativas absolutas sobre quem apoia quem, como se o mundo fosse dividido em blocos morais perfeitamente coerentes. Mas a realidade raramente funciona assim.
No caso específico da reunião em Londres, que contou com autoridades brasileiras e o empresário Daniel Vorcaro, o ponto central não deve ser uma caça às bruxas baseada em recortes de redes sociais. Se houver qualquer irregularidade, cabe às instituições investigar. A Polícia Federal já analisa informações relacionadas ao caso, e é esse o caminho institucional correto. Em uma democracia, ninguém está acima da lei. Mas também não se pode transformar qualquer encontro social em prova automática de crime.
Muitos setores políticos, especialmente ligados ao bolsonarismo, passaram a utilizar esse episódio para defender o impeachment de Alexandre de Moraes. Esse tipo de discurso, além de carecer de base jurídica concreta, revela mais uma tentativa de instrumentalizar fatos complexos dentro de uma disputa política permanente.
O olhar mais interessante talvez seja outro. Em vez de apenas procurar culpados imediatos, talvez seja mais importante entender como funciona o ecossistema do poder. Políticos, magistrados, empresários e líderes institucionais frequentemente participam dos mesmos fóruns, eventos e ambientes de influência. Isso faz parte da estrutura global de circulação de poder.
Por isso, mais do que indignação automática ou ingenuidade moral, talvez o que se exija seja lucidez. É preciso calibrar o olhar e enxergar além das aparências, além de discursos bonitos ou narrativas simplificadas. Estamos, em grande medida, dentro do espetáculo da vida pública. Um palco onde existem muitos atores, alguns deles extremamente habilidosos.
A pergunta final talvez não seja apenas quem estava sentado naquela mesa em Londres. A pergunta mais profunda é outra. Em um mundo movido por poder, dinheiro e influência, qual é o papel que cada um de nós ocupa nesse grande espetáculo.
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