Carregando o peso dos pensamentos em silêncio, enquanto o mundo segue em movimento.

Eu aprendi a fazer as coisas na minha vida sem motivação, pois se eu não fizer por mim, quem fará? Às vezes, levanto da cama sem querer levantar, escrevo sem querer escrever, posto sem querer postar. O mundo não para por ninguém. E se eu esperar o momento perfeito, a inspiração divina ou um sinal externo para agir, corro o risco de nunca sair do lugar. Então, antes que a vida me empurre para um caminho que não quero seguir, eu escolho andar. Mesmo que o percurso seja incerto. Mesmo que eu carregue o peso dos meus próprios pensamentos em silêncio.

Agradar os ingratos e confortar o ego de uma massa que aplaude a insanidade é algo que eu nunca fiz. Isso me tornou solitário, mas nunca infeliz. A solidão sempre foi um refúgio. Um espaço onde posso ouvir minha própria voz sem ser interrompido pelo ruído da superficialidade, das opiniões vazias, das certezas frágeis. Entre esse caos, me recolho. Prefiro a companhia do silêncio. Prefiro me cercar de pensamentos que edificam, de livros que ampliam minha visão, de ideias que me desafiam.

Schopenhauer disse: “Quanto mais inteligente você for, mais sofrerá”. Talvez ele tenha razão, ou talvez tenha apenas percebido cedo demais que compreender o mundo não é um alívio, mas uma condenação. Estar desperto em um mundo adormecido é carregar um fardo que poucos entendem. Porque perceber é sofrer. Ver demais é um castigo. E ignorância não é uma bênção — ignorância é um vírus. A engrenagem do atraso. A ferramenta predileta dos jogadores da religião, dos manipuladores do poder, dos arquitetos da miséria coletiva. A ignorância é cultivada porque convém. E quem ousa romper esse ciclo se torna uma ameaça.

Ser sociável nunca me atraiu. Eu me esforço para conviver, para sorrir nos momentos certos, para sustentar diálogos banais, mas a verdade é que prefiro o isolamento. É no recolhimento que encontro força, clareza. Nietzsche alertou: “Não ouse roubar minha solidão se você não for capaz de me fazer real companhia”. E o que é uma real companhia, senão a presença genuína? O maior erro de muitos é achar que estar ao lado de alguém significa estar presente. Mas presença sem essência é apenas mais uma forma de vazio.

Falar sobre solidão é também falar sobre amor próprio. Sartre dizia que “Se você estiver sozinho e não se sentir bem, cuidado: você não está em boa companhia”. A solidão, ao contrário do que muitos pensam, não é sinônimo de tristeza. Ela é a escola dos fortes. Quem se suporta, se conhece. Quem se conhece, não aceita qualquer coisa. O mundo teme aqueles que não seguem a boiada. Teme os que pensam.

Quando eu era mais jovem e ainda ligado ao cristianismo, tentava ser sociável. Acreditava que fazer parte de algo, de um grupo, de uma comunidade, era essencial. Mas então veio a realidade, nua e crua, me mostrando que a maioria das conexões humanas são frágeis. São laços feitos de conveniência, sustentados por interesses. Poucos são os que ficam quando não há mais nada para oferecer. Poucos são os que entendem que estar ao lado de alguém não exige troca, apenas presença.

O ato de conectar-se consigo mesmo é um ato revolucionário. Não é para todos. Requer enfrentamento. Requer encarar os próprios medos, os próprios erros, as próprias sombras. Jung nos lembra que “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda”. E quantos estão dispostos a acordar? Quantos estão prontos para carregar o peso de sua própria consciência?

O mundo é rápido, a informação é instantânea, mas a essência se perde. Estamos cercados por estímulos, mas vazios de sentido. As pessoas querem ser vistas, mas não querem se ver. Querem ser ouvidas, mas não têm nada a dizer. O tempo todo, correm para não pensar, para não sentir. E eu? Eu escolho carregar meus pensamentos. Escolho enfrentar meus silêncios. Escolho ser real em um mundo onde a falsidade virou moeda de troca.

A ignorância grita, a superficialidade viraliza, e o vazio ecoa. O pensamento crítico é desincentivado porque assusta. Quem questiona, ameaça. Quem não se encaixa, incomoda. Quem se conhece, não se dobra. E talvez por isso, a solidão tenha se tornado um abrigo. Não por medo do mundo, mas por entender que o mundo está doente e prefere não ser curado.

 

A verdade é que, no final, todos estamos sozinhos dentro de nossas mentes. A diferença é que alguns fogem disso e outros aprendem a lidar. Alguns se perdem na multidão, enquanto outros se encontram no silêncio. Eu escolho o segundo caminho. Tem que ser imenso para ser sozinho.

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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