A Indústria do Horror: Como os Linchamentos nos EUA se Tornaram uma Máquina de Terror Racial

A Indústria do Horror: Como os Linchamentos nos EUA se Tornaram uma Máquina de Terror Racial

“Não é vitimismo. É história. É a lembrança de uma ferida que nunca cicatrizou.”

No coração do século XX americano, enquanto o país celebrava avanços industriais, expansão econômica e a consolidação de seu papel como potência mundial, uma outra realidade pulsava nas entranhas do Sul: corpos pretos queimados, pendurados em árvores, rodeados por multidões que sorriam. Era o espetáculo do linchamento — uma prática sistemática, legitimada socialmente, que transformou a dor negra em ritual público.

Mais do que execuções extrajudiciais, os linchamentos formaram uma engrenagem de controle racial com requintes de crueldade, propaganda e participação coletiva. Essa estrutura brutal não apenas aterrorizava comunidades inteiras: ela comunicava, com precisão cirúrgica, quem era permitido existir com dignidade — e quem não era.

O caso Duck Hill: o ritual da tortura como “exemplo”

Em 1937, em Duck Hill, Mississippi, dois homens afro-americanos — Robert McDaniels e Roosevelt Townes — foram linchados em praça pública após serem acusados de um crime jamais provado. Mas não bastava matá-los. Eles foram queimados vivos com maçaricos de solda, enquanto uma multidão assistia. Não houve julgamento, nem direito à defesa. O assassinato foi tratado como justiça popular e noticiado com frieza em jornais locais.

O detalhe cruel: fotógrafos estavam presentes. As imagens circularam. Crianças estavam na plateia. Famílias inteiras compareceram. Era um acontecimento social. E, nesse sistema, o corpo preto era o palco, o aviso e o troféu.

Linchamentos como tecnologia de dominação

É importante compreender que o linchamento não era um ato isolado de raiva. Era uma política de Estado informal, sustentada por três pilares:

1. Silêncio institucional: Autoridades não só ignoravam, como muitas vezes participavam diretamente dos assassinatos.

2. Conivência midiática: Jornais brancos, ao noticiar linchamentos, muitas vezes culpabilizavam as vítimas ou romantizavam a multidão.

3. Ato pedagógico: O objetivo não era só matar, mas ensinar. A cada linchamento, uma lição era passada: “nunca se esqueça do seu lugar”.

Entre 1880 e 1950, mais de 4.000 afro-americanos foram linchados. O número pode ser maior. Muitos corpos foram queimados, ocultados, apagados da história. Alguns viraram cartões postais. Sim. Cartões postais. Com os dizeres: “Estive aqui. Foi justo.”

Capitalismo, supremacia e entretenimento: o tripé do horror

O linchamento também foi uma engrenagem econômica. O medo impunha obediência. Trabalhadores pretos aceitavam salários miseráveis, abusos, humilhações, porque sabiam o preço da revolta. O sistema lucrava com o terror. E a cultura do espetáculo se alimentava disso.

Era entretenimento — distorcido, perverso, mas socialmente aceito. E aqui está um dos pontos mais desconcertantes: essas multidões eram formadas por “cidadãos de bem”, comerciantes, professores, donas de casa. Isso mostra que o racismo não está nos monstros — está no cotidiano.

Do linchamento ao encarceramento: a continuidade do projeto

A máquina não parou. Ela apenas se reconfigurou.

O linchamento físico cedeu espaço ao encarceramento em massa. À violência policial seletiva. À medicalização do sofrimento preto. Às mortes simbólicas, como a negação de oportunidades, o controle sobre os corpos, o apagamento das narrativas.

Hoje, corpos pretos continuam sendo alvos. Na rua, na escola, no hospital, nas redes. A arquitetura da exclusão permanece de pé, moderna, ajustada, mas ainda funcional. O projeto é o mesmo: manter o controle e gerar lucro com nossa dor.

Memória como resistência, escrita como vingança histórica

Contar essas histórias é um ato de rebelião.

Relembrar McDaniels, Townes e tantos outros não é “vitimismo”. É construção de memória. É desafiar um sistema que quis nos fazer esquecer. Escrever sobre os linchamentos é levantar as lápides dos nossos e dizer: “eles não morreram em vão”.

Nós escrevemos porque nossos avós não podiam. Porque nossos ancestrais foram calados. Porque a história oficial silenciou o grito que ainda ecoa nas veias da diáspora.

Conclusão: não estamos lamentando, estamos registrando

Falar sobre linchamento não é um lamento. É um alerta. É um exercício de lucidez histórica. É entender que o passado não passou — ele se transmutou.

Publicar esses relatos é devolver voz ao que foi sufocado. É romper com a amnésia social. É devolver dignidade a quem foi desumanizado. E é, sobretudo, reafirmar que a vida preta importa. Que a história preta importa. Que a justiça, mesmo tardia, deve ser perseguida com palavras afiadas e memória viva.

Essa não é a história de um povo vitimizado. É a história de um povo que sobreviveu — e sobrevive — à guerra mais longa da história moderna.

E estamos vencendo.

Se quiser, posso transformar esse texto num PDF, um artigo com capa ou até roteiro para vídeo. É só dizer, CEO.

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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