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A heroína negra que a Argentina tentou apagar da história.

AI Brain

Esta é mais uma história que não te contaram na escola.

Entre 1766 e 1767, em Buenos Aires, nasceu uma mulher negra que seria atravessada por dores inimagináveis e, ainda assim, deixaria sua marca na história oficial dos hermanos argentinos. Seu nome era María Remedios del Valle. Mas, durante muito tempo, a Argentina branca tentou fazer com ela o que fez com grande parte de sua população afrodescendente: empurrá-la para o esquecimento.

María Remedios era afro-argentina, registrada nos documentos coloniais como “parda”, categoria usada pelo sistema racista de castas para classificar pessoas negras e mestiças. Ela nasceu em uma Buenos Aires profundamente marcada pela escravização africana, pelo tráfico de pessoas negras e pela exploração colonial. Antes da Argentina vender ao mundo a imagem de “Europa da América do Sul”, havia ali uma presença negra intensa, viva, trabalhadora, militar, cultural e decisiva.

Quando começaram as lutas pela independência, María Remedios não ficou à margem da história. Ela se juntou ao Exército do Norte, acompanhando seu marido e seus filhos nas campanhas militares. Mas ela não foi apenas “acompanhante”, como tantas vezes tentam reduzir mulheres negras na história. Ela cuidou de feridos, alimentou soldados, atravessou campos de batalha, enfrentou derrotas, prisões e violência. Em um tempo em que mulheres eram empurradas para a invisibilidade e pessoas negras eram tratadas como descartáveis, María Remedios ocupou o centro da luta.

María Remedios del Valle

Sua coragem chamou a atenção de Manuel Belgrano, um dos principais nomes da independência argentina. Depois de vê-la atuar com bravura, Belgrano lhe concedeu o título de capitã. Não era pouca coisa. Era uma mulher negra sendo reconhecida, em pleno século XIX, dentro de uma estrutura militar, patriarcal e racista. Seus companheiros passaram a chamá-la de “Madre de la Patria”, a Mãe da Pátria.

Mas a pátria, como quase sempre acontece com o povo negro, soube usar seu corpo antes de reconhecer sua humanidade.

María Remedios perdeu o marido e os filhos na guerra. Foi ferida em combate, capturada pelas tropas realistas e submetida a castigos brutais. Mesmo presa, continuou ajudando combatentes patriotas, colaborando para fugas e resistindo como podia. Ela carregava no próprio corpo as marcas de uma independência que se dizia libertadora, mas que não libertava igualmente todos os seus filhos.

Depois de tudo isso, o destino reservado a ela foi a pobreza. A mulher chamada de Mãe da Pátria terminou mendigando em Buenos Aires, esquecida pelo Estado que ajudou a construir. A mesma nação que celebrava generais brancos abandonou uma capitã negra à miséria. Não foi acidente. Foi projeto. O racismo argentino não apagou María Remedios por falta de informação; apagou porque sua existência desmontava a mentira nacional de uma Argentina branca, europeia e sem negros.

Décadas depois, sua história começou a ser recuperada. Hoje, María Remedios del Valle é reconhecida como símbolo da presença afro-argentina e da participação negra na independência. O dia 8 de novembro, data de sua morte, tornou-se na Argentina o Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro. Sua imagem também passou a circular em homenagens públicas e na cédula de 10 mil pesos argentinos, ao lado de Belgrano.

Mas reconhecimento tardio não apaga abandono histórico. María Remedios del Valle não precisa ser lembrada apenas como exceção heroica. Ela precisa ser lembrada como prova viva de que a Argentina também foi construída por mãos negras, por mulheres negras, por corpos negros explorados, silenciados e depois removidos da memória oficial.

Quando alguém disser que “não há negros na Argentina”, responda com o nome dela.

María Remedios del Valle.

Capitã. Mulher negra. Mãe da Pátria.

E uma das maiores provas de que a história da América Latina só começa a ser verdadeira quando o povo negro volta para o centro da narrativa.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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