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Quem realmente manda no Brasil? A ilusão do poder popular e o controle invisível.

AI Brain

Dizem por aí que “quem manda no Brasil é o povo brasileiro”. Mas quem exatamente é esse povo? Quais brasileiros? Aqueles que decidem sobre leis que jamais são implementadas, como a própria Lei 10.639, que obriga o ensino da história e cultura afro-diaspórica nacional e que até hoje é solenemente ignorada na maioria das escolas? Ou os brasileiros que controlam o agronegócio, as mineradoras, as mídias e as universidades, perpetuando uma elite branca herdeira dos saques de 1500?
Esse discurso “político-motivacional” que diz que o Brasil pertence aos brasileiros é, na prática, apenas retórica para massagear egos. Não cola. Quem manda no Brasil não é o brasileiro comum, mas sim uma minoria: famílias bilionárias, conglomerados financeiros e multinacionais que determinam o que vai no seu prato, o que aparece na sua tela e até o que você acredita ser verdade.

Controlam o ensino. Controlam as narrativas. Controlam as políticas públicas. Controlam o que você come, o que você assiste, o que você ouve. E isso não é teoria conspiratória: é estrutura. Está escancarado em cada lobby empresarial que barra regulamentações, em cada banco que dita juros absurdos, em cada publicidade que empurra padrões e necessidades inventadas.

E se quisermos ir ainda mais longe, até o ar que respiramos — poluído, controlado por políticas ambientais frouxas — nos escapa. Inspiramos sem custo, expiramos devolvendo para o universo. A única soberania real que ainda podemos cultivar é no campo mental: o que escolhemos pensar, o que decidimos questionar, o que permitimos entrar e moldar nossa consciência.

A elite histórica e o saque institucionalizado

É curioso como se tenta naturalizar a presença das famílias mais ricas no poder. Muitas dessas fortunas não foram construídas com suor honesto ou genialidade empreendedora: foram herdadas de um sistema colonial escravista, de concessões monárquicas, de capitanias hereditárias. São famílias que se beneficiaram de um Brasil nascido para servir ao capital externo e aos interesses privados.

Desde 1500, o território brasileiro foi loteado, explorado e sangrado para enriquecer uns poucos. Os nomes mudaram, os métodos se sofisticaram, mas a lógica persiste. Quem concentra terras, concessões, isenções fiscais, influência política, controla o país. O poder econômico que se consolidou por meio da escravidão, do extermínio indígena e da pilhagem de recursos naturais continua ditando as regras.

As corporações e o controle globalizado

Outro erro ingênuo é acreditar que somos governados apenas por brasileiros — sejam eles quais forem. O Brasil está enredado em acordos, dívidas externas, interesses geopolíticos e fluxos de capital que o tornam altamente dependente de potências estrangeiras e conglomerados transnacionais. Multinacionais ditam preços de commodities, controlam cadeias de suprimentos agrícolas, farmacêuticas determinam o valor dos remédios essenciais, gigantes da tecnologia exploram dados da população.

O caso da Amazônia é exemplar: enquanto o brasileiro médio acredita que a floresta pertence ao Brasil, fundos internacionais, bancos e grandes grupos do agronegócio tratam a região como uma mina infinita de lucros. E qualquer tentativa de regulação ambiental séria é prontamente sabotada, muitas vezes com lobby direto nos parlamentos.

Educação e narrativas: quem molda o que pensamos?

A ilusão de que temos autonomia vai além do econômico. Está também no mental. Tomemos como exemplo a Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-diaspórica nas escolas brasileiras. Uma vitória fundamental para tentar corrigir séculos de apagamento. Mas a lei nunca foi plenamente aplicada. Professores não são capacitados, o conteúdo não chega às salas, e o racismo estrutural se perpetua silenciosamente.

Se não conseguimos sequer garantir a implementação de uma lei que existe há mais de 20 anos, que soberania educativa temos? Quem controla o que nossos filhos aprendem? Quem decide quais heróis são exaltados, quais vozes são silenciadas, quais histórias viram filmes, novelas e ganham prêmios? A disputa pelo imaginário coletivo é brutal — e, em geral, vencida por quem detém os meios de comunicação, as editoras, as plataformas digitais.

A ilusão da liberdade individual

No dia a dia, somos conduzidos a acreditar que somos livres porque podemos escolher entre Coca e Pepsi, entre Netflix e Prime, entre votar em um candidato A ou B. Mas liberdade de consumo não é liberdade real. É uma liberdade moldada por publicidade, algoritmos, tendências que você pensa que escolheu, mas que foram cirurgicamente implantadas na sua cabeça.

Até o ar que respiramos não é exatamente nosso. Está contaminado por indústrias que lucram ao descartar resíduos sem fiscalização. Respiramos o ar poluído, devolvemos gás carbônico para o planeta — num ciclo que nos lembra que a única coisa que realmente fazemos é participar do fluxo natural do universo. Não controlamos nem o oxigênio.

O único território de controle: sua mente

Se há algum espaço onde podemos exercer domínio verdadeiro, é no campo mental. O que você decide acreditar, a quem você escolhe ouvir, quais ideias você permite que criem raízes no seu íntimo. O verdadeiro controle começa (ou termina) na sua cabeça. É lá que operam as maiores guerras: as narrativas que dizem o que é sucesso, o que é fracasso, quem é bonito, quem é feio, quem é vilão, quem é herói.

Por isso, questionar é vital. Quem estou seguindo? Por que acredito tanto nesse político, nesse pastor, nesse influencer? Por que me deixo conduzir sem refletir? A maior armadilha é o automatismo. Enquanto você vive no piloto automático, outros decidem por você.

Não delegue sua autonomia

Nenhum guru, partido ou movimento deve ter poder absoluto sobre sua consciência. Não abaixe a cabeça para quem se apresenta como seu “representante” ou “salvador”. Desconfie de quem oferece respostas fáceis para problemas complexos. Seja você o seu próprio representante.

Parece um conselho bobo — mas o óbvio precisa ser dito, repetido, martelado. Porque o senso crítico é constantemente bombardeado por distrações, por slogans publicitários, por narrativas emocionais que anestesiam o pensamento.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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