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Trump, Ibrahim e a velha política de fiscalizar o cú alheio

AI Brain

Este texto que faço é pra ficar registrada a minha indignação com a incoerência e a profunda ignorância em muitos dos pretos que dizem estar lutando contra o imperialismo. É uma crítica, quero acreditar que ele e seu fã-clube de enrustidos ampliem seus horizontes com novas lentes.

Porque existe algo profundamente errado quando alguém denuncia a dominação externa, mas ao mesmo tempo reproduz internamente a mesma lógica de controle, repressão e vigilância. O discurso contra o imperialismo vira teatro quando ele não atravessa todas as camadas do poder, inclusive as que atuam dentro do próprio país, dentro da própria cultura política, dentro do próprio Estado.

Sim, o imperialismo existe. Ele age por meio de dívidas, de sanções, de bases militares, de controle de rotas comerciais, de manipulação de conflitos internos, de financiamento seletivo de governos e de guerras permanentes. Isso é real, é documentado, é histórico. Mas usar essa verdade para justificar autoritarismo interno é uma perversão do próprio conceito de libertação.

Quando um governo afirma lutar pela soberania enquanto persegue pessoas por sua sexualidade, ele está apenas trocando a cor da mão que oprime. Muda o discurso, muda o inimigo declarado, mas mantém intacta a estrutura de controle. Isso não é libertação. Isso é reciclagem de dominação.

E aqui está o ponto mais incômodo para muitos. A repressão sexual que hoje se vende como defesa de valores locais não nasceu na África. Ela foi institucionalizada por missionários, códigos coloniais e moral religiosa importada. Criminalizar afetos é herança direta do projeto colonial. Defender isso em nome da identidade africana é uma contradição grotesca.

Portanto, quando líderes africanos atacam o imperialismo europeu mas mantêm intactas as ferramentas morais que a Europa implantou, eles não estão rompendo com o sistema. Estão apenas administrando o mesmo sistema com outra bandeira.

O resultado é uma política que fala em povo enquanto escolhe quem merece ser considerado parte do povo. Uma política que fala em liberdade enquanto seleciona quem tem direito a existir em paz. Uma política que fala em soberania enquanto transforma o Estado em fiscal de corpos, desejos e afetos.

Não existe libertação nacional sem libertação humana. Não existe emancipação coletiva construída sobre exclusão. Não existe futuro que se sustente sobre medo e punição.

Nesse ponto, esses líderes não são estruturalmente diferentes de Trump, Bolsonaro ou qualquer outro reacionário global. Todos eles usam pânico moral como ferramenta de poder. Criam inimigos internos para parecer fortes. Alimentam ressentimentos para esconder falhas estruturais. Governam pela emoção primária em vez de governar pela justiça.

Enquanto se discute quem dorme com quem, deixa-se de discutir fome, desemprego, saúde, educação, saneamento, violência policial, concentração de renda e dependência econômica. A guerra cultural funciona como distração. Ela ocupa o debate enquanto o essencial permanece intocado.

A África não precisa de novos moralistas. Precisa de projetos sérios de desenvolvimento, de redistribuição, de ciência, de autonomia produtiva e de liberdade real. Precisa de líderes que libertem, não que substituam o opressor externo por um opressor interno.

A incoerência não é apenas política, é ética. Não se combate a injustiça reproduzindo injustiça. Não se enfrenta a dominação praticando dominação. Não se constrói soberania censurando vidas.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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