Acredito que já atravessei aquele estágio quase infantil de querer mudar o mundo de uma vez, revolucionar a sociedade, acabar com o racismo, corrigir tudo ao mesmo tempo, como se a realidade fosse um grande erro de programação à espera de alguém iluminado para apertar o botão certo. Não abandonei os temas sociais, longe disso. Eles continuam atravessando tudo o que penso, escrevo e observo. Mas, caro leitor que me acompanha há algum tempo, posso dizer com tranquilidade que, nos últimos anos, especialmente depois de pequenas experiências de deslocamento, de cruzar fronteiras, idiomas e modos de viver, meu foco mudou. Conhecer a mim mesmo passou a ser central.
Não foi uma virada mística nem um gesto de fuga. Foi uma constatação dura. Não posso mudar o mundo porque esse mundo, como entidade abstrata, simplesmente não existe. O que existe são realidades concretas, pessoas reais, sistemas em funcionamento e escolhas sendo feitas todos os dias. O mundo é um espelho ampliado do que habita dentro de nós, individual e coletivamente. Fingir que ele é algo externo, distante, independente de quem somos, é uma forma confortável de escapar da responsabilidade.

Genocidio Congo
Ao mesmo tempo, essa compreensão não me levou ao silêncio nem à indiferença. Pelo contrário. Ela me colocou em um lugar mais específico. Eu não escolhi ser alguém que promete salvar o mundo. Escolhi ser alguém que comunica o mundo. E isso, por si só, já é um campo de conflito permanente.
Quando você escolhe comunicar a realidade, ela te atravessa, queira você ou não. O genocídio em curso no Congo não é um dado distante, uma nota de rodapé geopolítica. Ele escorre pelos dispositivos que usamos, pelos minerais que alimentam tecnologias, pela lógica de extração que sustenta confortos em outras partes do planeta. Falar disso não é militância vazia. É recusar o pacto do silêncio. É lembrar que existem vidas sendo moídas para que a normalidade siga intacta em outros lugares.
A Palestina também não é um tema abstrato, nem um debate teórico para especialistas em relações internacionais. É uma ferida aberta transmitida ao vivo, todos os dias, em alta definição. Corpos, casas, memórias e futuros sendo apagados sob justificativas burocráticas, enquanto o mundo escolhe palavras mornas para não se comprometer. Comunicar isso exige precisão. Exige cuidado. Exige coragem para não transformar dor em espetáculo nem violência em estatística fria.
É aqui que entra a minha escolha. Eu não me coloco mais no lugar de quem acha que vai corrigir a história. Mas também não aceito o papel confortável de quem observa tudo de longe, com falsa neutralidade. A forma como escolhi atuar no mundo é pela comunicação clara, direta, sem rodeios desnecessários. Comunicação como ferramenta de registro, de confronto e de memória.
Vivemos uma era estranha. A inteligência artificial avança em ritmo acelerado, textos são produzidos em massa, imagens surgem em segundos, opiniões se multiplicam sem lastro. Justamente por isso, escrever hoje se tornou um gesto ainda mais político. Não no sentido panfletário, mas no sentido profundo de escolher palavras com responsabilidade, de não terceirizar o pensamento, de não transformar tudo em ruído.
Não escrevo para ensinar ninguém a pensar. Escrevo porque pensar em voz alta, com método e honestidade, ainda me parece uma das poucas formas de não enlouquecer diante do absurdo normalizado. Escrevo porque comunicar com clareza é uma forma de resistência silenciosa contra a confusão deliberada, contra a mentira confortável, contra o apagamento contínuo de realidades que não interessam ao centro do poder.
Conhecer a mim mesmo, nesse processo, não foi um movimento de fechamento. Foi um ajuste de rota. Entendi meus limites, minhas contradições, meus pontos cegos. E foi justamente aí que percebi que não preciso carregar o delírio de mudar o mundo para justificar o que faço. Basta assumir, com seriedade, o lugar que escolhi ocupar.
Sou atravessado por guerras, massacres, injustiças e silêncios cúmplices porque trabalho com comunicação. Isso não é um fardo que reclamo, é uma consequência que aceito. O que posso oferecer não é salvação, é clareza. Não é solução mágica, é contexto. Não é conforto, é incômodo bem fundamentado.
Talvez maturidade seja isso. Parar de sonhar com grandes gestos heroicos e assumir pequenas práticas consistentes. Parar de querer consertar o mundo e começar a descrevê-lo com honestidade. Porque, no fim, comunicar bem uma realidade já é, em si, uma forma de interferir nela. Não muda tudo. Mas muda algo. E, às vezes, isso é exatamente o que está ao alcance.
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