O pensamento de Eduardo Galeano permanece desconfortavelmente atual porque ele não fala apenas de eventos históricos, ele descreve uma lógica. Uma engrenagem que atravessa séculos, muda de linguagem, troca de tecnologia, mas preserva a mesma estrutura. Em As Veias Abertas da América Latina, Galeano mostra como a ideia de “salvar povos” sempre foi o verniz moral que recobre projetos de saque, controle e dominação. Primeiro vem a narrativa civilizatória. Depois, a intervenção. Em seguida, o colapso social. E por fim, o esquecimento cuidadosamente produzido.
Essa lógica não pertence ao passado colonial. Ela está viva, sofisticada e perfeitamente funcional no presente. O discurso mudou. Hoje não se fala mais em missão cristã ou em civilizar bárbaros. Fala-se em democracia, liberdade de mercado, estabilidade regional, combate ao terrorismo, defesa dos direitos. Mas o efeito concreto sobre os territórios e sobre os corpos continua sendo o mesmo. Países “salvos” acumulam populações deslocadas, economias destruídas, Estados fragilizados e sociedades marcadas por traumas coletivos profundos.
A Venezuela é um caso emblemático dessa pedagogia da ruína. O ataque arbitrário não precisa começar com bombas. Ele começa com sanções, com bloqueios financeiros, com sabotagem comercial, com isolamento diplomático, com manipulação da percepção pública. A crise que se segue é então apresentada como prova da incapacidade interna do país. E o mesmo ator que contribuiu para produzir o colapso surge como possível solução. A engrenagem fecha o ciclo e ainda se apresenta como virtuosa.
Galeano nos ensina que isso não é uma falha do sistema. Isso é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar. O imperialismo contemporâneo opera menos pela ocupação direta e mais pela captura indireta. Ele captura moedas, cadeias produtivas, fluxos de informação, imaginários sociais. Ele não precisa mais administrar territórios. Basta desorganizá-los o suficiente para torná-los dependentes, frágeis e permanentemente em crise.
Há também um elemento psicológico nessa forma de dominação. Ela produz povos cansados, exaustos, ocupados demais em sobreviver para poder imaginar alternativas. Produz sociedades que passam a confundir estabilidade com submissão, ajuda com tutela, proteção com vigilância. O efeito não é apenas econômico ou político. É existencial. É uma forma de amputação coletiva da capacidade de imaginar futuro.

Eduardo Galeano
Ler Galeano hoje é um gesto de resistência intelectual. Não no sentido romântico, mas no sentido prático. Ele oferece ferramentas para desmontar a propaganda antes que ela se instale como senso comum. Ele nos ensina a desconfiar do discurso que chega sempre bem embalado, com vocabulário moral elevado e intenções supostamente nobres, mas que produz sistematicamente destruição, desigualdade e morte.
Talvez por isso Galeano incomode tanto. Porque ele não denuncia apenas os poderosos, ele denuncia também a narrativa que sustenta o poder. Ele expõe que o problema não está só nas bombas, mas na ideia que legitima as bombas. Não está só nas sanções, mas na linguagem que as transforma em gesto humanitário. Não está só nos Estados, mas nos discursos que tornam esses Estados aceitáveis.
O pensamento de Galeano não é confortável. Ele não oferece consolo fácil, nem finais edificantes. Ele oferece lucidez. E, em tempos em que a violência costuma vir acompanhada de slogans positivos e emojis de boas intenções, a lucidez talvez seja uma das formas mais urgentes de cuidado coletivo.
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