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Quando brancos colocaram africanos em jaulas: a era dos zoológicos humanos

AI Brain

No final do século XIX e durante boa parte do século XX, a Europa e os Estados Unidos promoveram uma das formas mais degradantes de colonialismo cultural: as exposições humanas, também chamadas de zoológicos humanos ou exposições etnológicas. Nessas mostras, pessoas — na maioria africanas, indígenas e de outras populações colonizadas — eram colocadas em recintos cenográficos como se fossem atrações, “primitivas” ou “exóticas”, para o olhar fascinado das massas ocidentais.

Esses espetáculos não eram raros nem periféricos ao pensamento dominante. Pelo contrário: foram eventos de grande visibilidade, legitimados por pseudociência, moda antropológica e ideologias racistas que procuravam justificar o imperialismo europeu e a hierarquia racial que fundamentava o colonialismo.

Zoologico humano na Belgica 1958

Como surgiram e onde aconteceram

As exposições humanas ganharam força a partir da década de 1870, no contexto do chamado novo imperialismo. Foi um período em que as grandes potências europeias — França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, entre outras — expandiam seus impérios e transformavam povos colonizados em mercadorias culturais. 

Um dos exemplos mais conhecidos ocorreu em Paris, no chamado Jardin d’Acclimatation, onde multidões podiam observar habitantes de colônias africanas em cenários que imitavam “aldeias típicas”. 

Na Exposição Universal de 1889, também em Paris, cerca de 400 pessoas de diversas regiões colonizadas foram exibidas no “Village nègre”, atraindo milhões de visitantes e reforçando estereótipos de inferioridade racial que eram revestidos de curiosidade científica e entretenimento popular. 

A prática se espalhou por grandes centros urbanos:

  • Hamburgo e Berlim na Alemanha;
  • Antuérpia e Bruxelas na Bélgica, onde mais de 250 congolenses foram forçados a participar de uma aldeia colonial na Feira Mundial de 1897, diante de até 40 mil visitantes por dia.  
  • Londres e Barcelona também tiveram exposições semelhantes.  

E nos Estados Unidos — o caso de Ota Benga

Nos Estados Unidos, a prática também se manifestou com brutalidade. Um dos exemplos mais chocantes foi a exibição de Ota Benga, um homem mbutu do Congo, no Bronx Zoo em 1906, em Nova York. Por considerar o corpo dele “primitivo”, os responsáveis o colocaram em uma jaula perto de um orangotango.

Antes disso, em 1904, Benga já havia sido apresentado como parte de um “pavilhão humano” na Louisiana Purchase Exposition em St. Louis, Missouri, onde indígenas e africanos eram mostrados como curiosidades antropológicas. 

O caso gerou protestos de jornais e lideranças afro-americanas da época, mas Benga acabou confrontando sua condição profundamente desumana e suicidou-se em 1916 após anos de marginalização nos Estados Unidos. 

Brasil e exposições humanas

O fenômeno dos zoológicos humanos não ficou restrito à Europa e aos EUA. No Brasil, também encontramos registros dessa lógica colonial reproduzida de forma local. Em 1882, o Museu Nacional do Rio de Janeiro organizou uma exibição antropológica em que uma família indígena era apresentada em contexto que imitava estereótipos de “selvageria” para o público carioca. 

Esse evento ilustrava como o racismo científico e o exotismo estavam presentes no imaginário brasileiro — não apenas como curiosidade, mas como forma de reforçar hierarquias culturais construídas pelo colonialismo europeu e português.

Até quando durou essa prática?

As exposições humanas foram mais intensas entre 1870 e os anos 1950, sendo que o último grande caso documentado ocorreu durante a Exposição Mundial de Bruxelas, em 1958, quando ainda foram apresentadas populações colonizadas em contexto de “aldeias nativas”. 

Embora parte desses espetáculos tenha deixado de ocorrer depois da Segunda Guerra Mundial e diante da descolonização, o fenômeno deixou marcas profundas na forma como o Ocidente construiu — e ainda às vezes sustenta — representações de povos não europeus como “outros” ou “exóticos”.

Cartazes das exposições de núbios (1877), calmucos (1883) e somalis (1890) no Jardin zoologique d’acclimatation em Paris — e detalhes do cartaz da mostra dos ashantis (1887)

Os zoológicos humanos não eram apenas entretenimento ou curiosidade: eles funcionavam como strumentos de legitimação de ideias racistas e hierarquias coloniais, que apoiavam a noção de “civilização” europeia superior. 

Na época, essas exposições eram muitas vezes apresentadas como formas de “educação” científica, ligadas a discursos de antropologia racial que hoje são amplamente descreditados. 

A historiadora Sandra Koutsoukos, autora de estudo sobre o tema, descreve como essas exibições ajudaram a consolidar no imaginário ocidental a ideia de que povos colonizados eram representantes de fases “primitivas” da história humana. 

Para refletir — indicação de leitura e filmes

Para quem quer entender melhor esse capítulo sombrio do passado recente, duas recomendações concretas:

📘 Livro: Human Zoos: Science and Spectacle in the Age of Colonial Empires — coletânea de ensaios que analisa como essas exposições funcionavam e se encaixavam nas estruturas imperialistas.

🎥 Documentário: Human Zoos (Discovery Science) — um filme que explora a história dos zoológicos humanos nos Estados Unidos e na Europa, contextualizando-os dentro das ideologias raciais da época. 

Esse olhar não é apenas sobre o passado. É um convite a compreender como poder, estética e racismo se entrelaçaram para produzir representações que ainda influenciam nossa cultura visual e política hoje.

Se quiser, posso preparar também uma versão resumida para Instagram ou um roteiro de vídeo a partir desse conteúdo ✍️.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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