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Quando africanos governaram a Europa e mudaram o rumo do mundo.

AI Brain

A Europa não é um continente. A primeira coisa que nós precisamos deixar isso aqui bem claro. E a razão pela qual você que está lendo esse texto acredita que ela é um continente é porque você foi educado em um sistema repleto de muitas e muitas mentiras. E essa é uma das grandes mentiras. A Europa não é um continente. Ela é uma península da Ásia, uma extensão territorial que foi elevada simbolicamente à condição de centro do mundo por razões políticas, militares e culturais. Essa elevação não aconteceu por acaso. Ela foi construída junto com a colonização, com a expansão imperial e com a necessidade de justificar hierarquias globais.

John Henrik Clarke foi um dos grandes intelectuais da diáspora africana do século XX. Historiador, professor e organizador político, ele dedicou sua vida a estudar a história dos povos africanos e de seus descendentes fora do continente, num momento em que essa história era sistematicamente ignorada, distorcida ou reduzida a estereótipos. Clarke escreveu, ensinou e formou gerações de estudantes justamente porque entendia que o controle da história é uma forma profunda de poder. Para ele, quem controla o passado controla as possibilidades do presente.

É nesse horizonte que surge sua famosa afirmação de que os europeus brancos foram os últimos a surgir na história humana e, mesmo assim, convenceram boa parte do mundo de que tudo começou com eles. Essa frase não é uma provocação gratuita. Ela aponta para um processo histórico real de apropriação e apagamento. Povos africanos desenvolveram sistemas complexos de organização social, pensamento filosófico, matemática, medicina, astronomia, arquitetura e literatura muito antes da Europa se consolidar como centro político. O problema nunca foi a Europa aprender com isso. O problema foi aprender, apagar a origem e depois se declarar autora.

A presença moura na Europa é um dos exemplos mais claros desse processo. Durante séculos, povos africanos e árabes governaram grandes regiões da Península Ibérica e influenciaram profundamente a formação do que hoje se chama de civilização europeia. Em Al-Andalus, que existiu aproximadamente entre os séculos VIII e XV, foram construídas cidades planejadas, sistemas avançados de irrigação, bibliotecas com centenas de milhares de volumes, centros de tradução, observatórios astronômicos e instituições de ensino que mais tarde serviriam de modelo para as universidades europeias.

Os mouros introduziram métodos científicos de observação, preservaram e expandiram obras da filosofia grega, desenvolveram a álgebra, aperfeiçoaram a medicina clínica, difundiram práticas de higiene urbana, como banhos públicos e sistemas de esgoto, e estabeleceram formas mais complexas de convivência entre diferentes grupos religiosos e culturais. A própria ideia de universidade, como espaço institucional de produção e transmissão de conhecimento, deve muito a esses centros criados sob domínio africano na Europa.

A chamada Renascença europeia só foi possível porque antes houve um imenso trabalho de tradução, preservação e desenvolvimento intelectual realizado em centros africanos e árabes. Textos de Aristóteles, Galeno, Hipócrates e tantos outros chegaram à Europa medieval filtrados, comentados e ampliados por estudiosos africanos e do mundo islâmico. Mesmo assim, a história consagrada costuma apresentar a Renascença como um renascimento espontâneo europeu, como se nada existisse antes.

Esse processo não é apenas um erro historiográfico. Ele é um roubo estruturado. Roubo de conhecimento, de autoria, de centralidade simbólica. Ao apagar quem construiu, constrói-se a imagem de quem nunca construiu como fundador. Ao silenciar as origens, cria-se a ilusão de que certos povos são naturalmente produtores de saber e outros são apenas consumidores ou objetos de estudo.

Esse roubo molda até hoje a forma como o mundo organiza prestígio, poder e legitimidade. Ele define quem é visto como intelectual, quem é visto como autor, quem é visto como referência. Ele influencia quem recebe financiamento, quem ocupa universidades, quem é citado e quem é esquecido. Ele constrói uma hierarquia que parece natural, mas que é resultado direto de violência simbólica e material acumulada ao longo de séculos.

Recontar essa história não é um exercício de nostalgia. É um gesto político e pedagógico. É uma forma de desmontar a ideia de que a civilização tem uma única origem, uma única cor, uma única geografia legítima. É uma forma de lembrar que o mundo foi construído por muitos centros, muitos povos, muitas inteligências, e que a versão oficial da história escolheu apenas um deles para representar todos.

John Henrik Clarke entendia isso profundamente. Por isso insistia que recuperar a história não era apenas um ato acadêmico, mas um ato de libertação. Libertação do pensamento, da imaginação e das possibilidades de futuro. Um povo que conhece sua história não aceita facilmente ser reduzido, tutelado ou silenciado.

Desmontar as mentiras que sustentam o mito da centralidade europeia não destrói nada de valor. Pelo contrário, amplia o mundo. Permite ver a história como ela é, complexa, interligada e atravessada por contribuições que foram apagadas por conveniência política. Permite devolver dignidade a trajetórias que foram sistematicamente negadas. E permite que o presente seja construído sobre bases mais honestas.

Recontar essa história não é reescrever o passado. É devolver ao presente a sua verdadeira profundidade.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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