PT reconhece que não está conseguindo dialogar com a nova classe trabalhadora.

O Partido dos Trabalhadores nasceu nos anos 1980 como filho legítimo do sindicalismo brasileiro, dos metalúrgicos do ABC, das greves históricas e da força coletiva dos trabalhadores formais. Sua trajetória de poder foi moldada pelo vínculo direto com uma classe trabalhadora organizada, regida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e sustentada pela lógica fabril, industrial e urbana. Mas esse chão de fábrica já não é mais o centro da vida social. O Brasil de 2025 é marcado por motoristas de aplicativo, entregadores de bicicleta, trabalhadores multitarefas e profissionais da economia digital que nunca pisaram em um sindicato. A própria noção de “trabalhador” mudou.

O novo presidente do PT, Edinho Silva, reconheceu essa transformação de maneira franca: “não estamos conseguindo dialogar com a nova classe trabalhadora”. A frase, simples e direta, expõe uma ferida aberta no coração da esquerda. O partido que sempre se orgulhou de ser a voz dos trabalhadores enfrenta agora um abismo de linguagem, de símbolos e de estratégias para alcançar justamente quem deveria ser sua base natural. Se no passado bastava falar de salário, jornada e direitos, hoje é preciso dialogar com quem lida com algoritmos, aplicativos, jornadas irregulares e uma vida feita de pequenos ganhos diários.

Esse é o paradoxo: o PT fala de direitos, mas essa nova classe trabalhadora muitas vezes nem quer vínculo formal. Quer liberdade, quer autonomia, mas também quer segurança. Vive a contradição de se enxergar como classe média, mesmo sobrevivendo sem estabilidade, e de recusar a tutela de sindicatos que parecem distantes. O desafio, portanto, não é apenas político, mas cultural e simbólico. Como falar com uma classe que não se enxerga como classe?

Aqui entra o ponto central: a resistência, ainda presente no PT, de investir no digital e nos influenciadores que moldam opinião em escala massiva. Enquanto a extrema-direita ocupou as redes sociais com uma linguagem simples, emotiva e contínua, o PT demorou a entender que o campo de batalha mudou. A fábrica virou plataforma, o comício virou feed, o panfleto virou post, e os influenciadores digitais são, hoje, os novos líderes comunitários. Sem disputar esse território, o partido corre o risco de falar sozinho.

Quem é a nova classe trabalhadora

A chamada “nova classe trabalhadora” não pode ser definida apenas pelo contracheque, mas pelo modo de vida. São os jovens e adultos que dependem de aplicativos, freelancers que vivem de demandas avulsas, microempreendedores que misturam vida pessoal e profissional, e trabalhadores informais que circulam entre bicos e pequenos negócios digitais. É a classe que consome internet como oxigênio, mas que sente na pele a instabilidade da falta de direitos.

Essa classe vive de repetições: entregas, corridas, tarefas digitais. São trabalhadores que conhecem bem a precariedade, mas que, ao mesmo tempo, não se reconhecem no discurso tradicional do sindicalismo. Há orgulho em dizer “não tenho patrão fixo”, ainda que a realidade mostre que o algoritmo funciona como patrão invisível. Esse imaginário de autonomia é justamente o ponto cego do PT: falta compreender que, para muitos, a identidade não é mais “operário”, mas “empreendedor de si”.

O limite da linguagem tradicional

Edinho Silva. Novo Presidente do PT.

Edinho Silva foi direto: o PT precisa disputar o senso comum e disputar a linguagem. Mas a linguagem da esquerda ainda se apresenta muitas vezes hermética, distante, presa em conceitos que não ressoam na rotina de quem trabalha do celular. Palavras como “proletariado” ou “classe trabalhadora” já não encontram eco imediato em quem prefere se ver como prestador de serviços, profissional autônomo ou influenciador emergente.

É nesse espaço vazio que outras forças políticas avançaram. Igrejas neopentecostais, influenciadores digitais conservadores e canais de comunicação de direita criaram um vínculo cotidiano com essa massa. Não é só discurso político: é acolhimento simbólico, é linguagem que toca na autoestima, é narrativa de pertencimento. Enquanto isso, o PT ainda fala muito para si mesmo, em jargões e termos que não atravessam a tela do celular.

Resistência ao digital

A esquerda tradicional sempre desconfiou da figura dos influenciadores digitais. Viu neles superficialidade, culto à personalidade, espetáculo. Mas essa desconfiança custou caro. Porque hoje são esses influenciadores que ocupam o espaço que, no passado, era do líder sindical no chão de fábrica. São eles que falam a língua do cotidiano, que transformam indignação em vídeo, que traduzem política em frases curtas que viralizam.

O PT ainda hesita em apostar pesado nesse campo, preferindo investir em campanhas clássicas e em estruturas partidárias convencionais. Mas o mundo já não funciona nesse ritmo. Quem acorda cedo para dirigir um carro por aplicativo ou fazer entregas de bicicleta não vai abrir um jornal ou assistir a um comício — mas vai consumir vídeos, posts e memes. A disputa de consciência hoje passa pelo TikTok, pelo Instagram, pelo YouTube. Resistir a isso é resistir a falar com a própria base.

Caminhos possíveis

O desafio, portanto, é reinventar o diálogo. Isso não significa abandonar a tradição, mas traduzir a luta para o idioma digital. É preciso formar influenciadores progressistas, disputar narrativas nas redes, simplificar a linguagem sem perder densidade. É preciso criar alternativas organizativas que façam sentido para esse novo trabalhador: cooperativas digitais, aplicativos autogeridos, redes de solidariedade financeira.

E, acima de tudo, é preciso oferecer horizonte. Não basta apontar as mazelas da uberização; é preciso mostrar que outra vida é possível. A extrema-direita triunfa porque oferece promessa, ainda que ilusória. A esquerda precisa oferecer esperança concreta.

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016).
Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo.
É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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