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O Shakespeare branco é uma invenção histórica. Livro afirma que ele era uma mulher africana e judia.

AI Brain

Bom, você duvida que europeus tenham moldado a identidade de Shakespeare ao longo dos séculos? Basta olhar com atenção para a própria história da construção cultural do Ocidente e perceber que a manipulação de imagens, origens e legados sempre fez parte dos projetos de poder. Isso não seria novidade alguma. A reinterpretação estratégica do passado é um instrumento antigo. A apropriação simbólica também.

Quando estudamos o caso do Egito antigo, Kemet, vemos um processo semelhante. Civilizações africanas complexas, sofisticadas e intelectualmente avançadas foram, durante muito tempo, reinterpretadas a partir de lentes eurocêntricas. O grande exemplo popular é Cleópatra, frequentemente retratada com traços europeus, apagando debates sobre sua real ancestralidade e o contexto africano no qual governou. A imagem do “grande salvador da humanidade”, em diversas tradições visuais, também foi progressivamente embranquecida, consolidando um padrão estético que associa centralidade histórica à brancura.

Nesse cenário, questionar a autoria das obras atribuídas a Shakespeare deixa de ser apenas uma provocação literária e passa a tocar em algo mais profundo: quem tem o direito de ser reconhecido como gênio? Quem pode ocupar o centro do cânone? A hipótese envolvendo Emilia Bassano, uma mulher do período elisabetano com origem judaica e possível ascendência mediterrânea, surge justamente nesse ponto sensível. Ela tensiona estruturas consolidadas e expõe como gênero, etnia e poder caminham juntos na formação da memória coletiva.

Isso não significa substituir um mito por outro, mas admitir que a história oficial sempre foi escrita dentro de disputas. Arquivos foram selecionados, biografias foram enfatizadas, silêncios foram produzidos. Questionar essas construções não é destruir a literatura inglesa, é aprofundá-la. É reconhecer que o passado é menos neutro do que parece e que a cultura, muitas vezes apresentada como universal, também carrega marcas de exclusão.

Investigar essas hipóteses é, acima de tudo, um exercício de maturidade intelectual. Afinal, rever narrativas consolidadas faz parte do próprio movimento do conhecimento.

É nesse contexto que surge o livro The Real Shakespeare, obra que reacende uma tese antiga e incômoda: a de que o autor consagrado pode ter sido, na verdade, uma mulher de origem africana e judaica, escrevendo sob pseudônimo para sobreviver numa Inglaterra elisabetana hostil a mulheres e a judeus. A publicação revisita documentos, códigos linguísticos, redes de patronagem e o próprio contexto religioso da época. Questiona-se a ausência de manuscritos autógrafos, as lacunas biográficas e a sofisticação jurídica e cortesã dos textos atribuídos ao suposto homem branco genial de Stratford.

E você o que pensa? Duvida que os europeus teriam coragem de embranquecer a imagem de Shakespeare assim como fizeram com Jesus, Santo Agostinho, cleopatra, Imhotep e tantos outros???deixa aí nos comentários.

A história oficial sempre teve um pincel seletivo. Ele clareia retratos, suaviza traços, apaga origens e depois apresenta o resultado como verdade incontestável. O embranquecimento de figuras históricas é um fenômeno documentado, recorrente e profundamente político. Não é descuido artístico. É projeto de poder.

Olha para o Egito antigo, Kemet, berço de ciência, arquitetura e espiritualidade sofisticadas. Durante séculos, livros didáticos e produções cinematográficas insistiram em retratar suas elites como europeias. A própria Cleópatra virou símbolo máximo desse processo. Sua imagem foi moldada para caber no imaginário ocidental, ignorando a complexidade étnica do norte da África antiga. O mesmo ocorreu com representações de faraós e pensadores egípcios, frequentemente redesenhados com feições europeizadas.

No cristianismo europeu, a iconografia de Jesus Cristo consolidou um homem de olhos claros e pele alva como padrão universal. Essa imagem se espalhou pelo mundo via colonização, catequese e arte sacra. A questão aqui não é fé, é construção simbólica. Um salvador embranquecido legitima hierarquias raciais num mundo moldado por impérios europeus.

Outro caso emblemático é Ludwig van Beethoven. Há debates sobre suas possíveis origens e relatos históricos que mencionam traços considerados incomuns para o padrão germânico da época. Ao longo dos séculos, retratos foram padronizados para reforçar uma identidade europeia homogênea, eliminando ambiguidades que pudessem tensionar a narrativa cultural dominante.

Até personagens da Antiguidade clássica africana, como Hannibal Barca, general cartaginês que enfrentou Roma, costumam ser representados com estética europeizada em pinturas e filmes. Cartago ficava no norte da África. Ainda assim, sua imagem raramente reflete essa geografia de forma fiel.

O embranquecimento funciona como tecnologia de poder. Ele define quem pode ser gênio, estrategista, santo, rainha, filósofo. Ao clarear rostos históricos, cria-se a ilusão de que excelência intelectual e liderança pertencem a um único grupo. Questionar essas imagens é abrir fissuras numa estrutura simbólica construída há séculos.

Revisar retratos históricos não é capricho ideológico. É exercício crítico. É ampliar o foco da lente. A memória coletiva sempre foi campo de disputa. E toda vez que alguém recupera tonalidades apagadas, a história respira um pouco mais próxima da complexidade que sempre teve.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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