A ideia de que Salomão foi um rei histórico, riquíssimo, dono de um império grandioso e de uma sabedoria sem precedentes é uma das imagens mais difundidas da Bíblia. No entanto, quando essa figura é retirada do campo da fé e colocada sob o crivo da ciência, da arqueologia e da historiografia moderna, o cenário muda radicalmente. Não há provas científicas que confirmem a existência de Salomão tal como descrito no texto bíblico. Não há inscrições contemporâneas, não há registros administrativos, não há palácios identificáveis, não há tesouros, não há vestígios urbanos compatíveis com a imagem de um reino opulento e centralizado em Jerusalém no período atribuído a ele.
A arqueologia no Levante é uma das mais intensamente estudadas do mundo. Séculos de escavações em Israel e regiões vizinhas mapearam cidades, assentamentos, rotas comerciais e estruturas políticas. O que se encontrou para o período tradicionalmente associado a Salomão foram vilas pequenas, economia agrária limitada e ausência de qualquer evidência de um grande império unificado. Jerusalém, longe de ser uma metrópole rica, era um núcleo modesto, sem sinais de monumentalidade compatíveis com os relatos bíblicos. A figura de Salomão, tal como apresentada, não encontra respaldo material.
Isso não significa que os textos bíblicos sejam irrelevantes. Eles cumprem uma função simbólica, religiosa e política. São textos produzidos séculos depois dos acontecimentos que afirmam narrar, organizando uma memória coletiva, legitimando poder e estruturando uma cosmovisão. Nesse sentido, Salomão pertence ao campo da mitologia bíblica. Mitologia não no sentido vulgar de mentira simples, mas como construção simbólica que expressa valores, hierarquias e ideais. Ainda assim, mitologia não é história comprovada.

Quando se olha para a história a partir das evidências materiais, o contraste com Mansa Musa é contundente. Aqui não há lacuna arqueológica, não há silêncio documental, não há dependência exclusiva de textos sagrados. A existência de Mansa Musa é confirmada por uma abundância de fontes. Crônicas árabes, registros de viajantes como Al-Umari, mapas medievais europeus, documentos comerciais, relatos diplomáticos e vestígios urbanos do Império do Mali atestam sua presença histórica e sua relevância global.
Mansa Musa governou no século XIV um dos maiores e mais ricos impérios da história. O Mali controlava vastas rotas comerciais transaarianas, responsáveis pela circulação de ouro, sal, marfim e outros recursos estratégicos. Estima-se que uma parcela significativa do ouro que abastecia o mundo islâmico e europeu passava por seus domínios. Sua famosa peregrinação a Meca não é um conto simbólico, mas um evento documentado que causou impactos econômicos reais. A distribuição massiva de ouro durante essa viagem foi tão intensa que provocou inflação em cidades como Cairo e Medina, efeito registrado por cronistas da época e analisado por historiadores modernos.
Além da riqueza material, Mansa Musa investiu em infraestrutura, educação e urbanismo. Cidades como Timbuktu tornaram-se centros intelectuais de alcance internacional, com universidades, bibliotecas e produção de conhecimento que atraíam estudiosos de várias regiões do mundo islâmico. Mesquitas, palácios e complexos urbanos associados ao seu reinado ainda deixam rastros arqueológicos e arquitetônicos que podem ser estudados, datados e contextualizados.
Enquanto Salomão vive exclusivamente no campo da mitologia bíblica, Mansa Musa atravessa mapas, arquivos, cidades e registros econômicos. Um é sustentado pela fé e pela repetição cultural. O outro é sustentado por evidências materiais e impactos mensuráveis. Um é símbolo religioso. O outro é agente histórico concreto, cujas ações alteraram fluxos econômicos globais.
Esse contraste revela algo mais profundo do que a simples comparação entre duas figuras. Ele expõe como a história foi construída, transmitida e hierarquizada ao longo dos séculos. Personagens associados à tradição europeia e bíblica foram elevados ao status de verdade histórica mesmo sem evidência material, enquanto figuras africanas, amplamente documentadas, foram marginalizadas, silenciadas ou tratadas como curiosidades exóticas.
Reconhecer Mansa Musa como o homem mais rico de todos os tempos não é exagero retórico, é conclusão baseada em dados históricos. Questionar a existência de Salomão como figura histórica não é ataque à fé, é exercício de método científico. Entre fake e original, a diferença está na evidência. E a história, quando analisada com rigor, fala por si.
Referência: Legado Roubado, de George G. M. James.