José Saramago sabia exatamente o peso de uma provocação. Ao afirmar que “o mundo seria mais pacífico se todos fossem ateus”, o escritor português não atacava a espiritualidade individual, mas o poder institucional da religião, que tantas vezes serviu de justificativa para massacres, perseguições e genocídios. Em pleno século XXI, a frase continua a ecoar como diagnóstico: a fé, quando transformada em dogma político, alimenta ódio, legitima violência e sustenta privilégios que matam em nome de Deus.
Vivemos um tempo em que a violência se traveste de moralismo religioso. Em Gaza, o Estado de Israel invoca sua herança bíblica e o “direito divino” sobre a terra enquanto bombas matam milhares de civis palestinos. No Congo, grupos armados disputam minerais sob discursos de proteção étnica e religiosa, ao mesmo tempo em que vilas inteiras são queimadas e milhões de pessoas são forçadas a deixar suas casas. Em ambos os casos, a fé não é a origem única do conflito, mas funciona como combustível para endurecer posições e transformar adversários em inimigos “malditos”.
A religião, quando atrelada ao poder, dificilmente caminha ao lado da justiça. Historicamente, foram as instituições religiosas que legitimaram a escravidão, a colonização e as guerras de conquista. Sempre havia uma cruz na mão de quem desembarcava com a espada. Hoje, no Brasil, discursos políticos carregados de “temor a Deus” são usados por aqueles que apoiam chacinas policiais, aplaudem execuções sumárias e fecham os olhos para o genocídio cotidiano da juventude periférica. Quanto mais alto se grita o nome de Deus, mais sangue corre nas vielas.
Não é a espiritualidade pessoal que está em questão, mas a fé transformada em ferramenta de poder. Quando o sagrado vira argumento de Estado, a violência ganha aura de legitimidade. Nenhum criminoso confesso se apresenta como agente do mal; ao contrário, os piores massacres da história foram cometidos por aqueles que se diziam porta-vozes do bem, da moral e da ordem. Essa contradição é o que Saramago escancarou em sua frase: se o mundo fosse ateu, talvez não tivéssemos a desculpa divina que transforma guerra em cruzada e genocídio em missão.
Genocídios contemporâneos: Gaza e Congo
Segundo a ONU, já são mais de 62 mil mortos em Gaza desde outubro de 2023. A Corte Internacional de Justiça chegou a determinar medidas cautelares, reconhecendo risco de genocídio e exigindo que Israel evitasse atos que configurassem extermínio. Ainda assim, a destruição segue, alimentada pelo discurso religioso e pela retórica da autodefesa “abençoada”. No Congo, a tragédia é silenciosa: 7,8 milhões de deslocados internos, aldeias inteiras devastadas, execuções em massa. Ali, a justificativa não é apenas econômica, mas também simbólica: grupos rivais mobilizam discursos religiosos para radicalizar a violência e eliminar comunidades inteiras.
Esses casos demonstram como a fé, quando usada como selo de legitimidade, deixa de ser espaço de consolo e se torna munição de guerra. É mais fácil matar quando se acredita que o outro é um “inimigo de Deus”. É mais fácil expulsar, torturar e destruir quando o massacre vem embalado por uma causa sagrada. O sangue escorre mais rápido quando é justificado pelo altar.
A violência dos que dizem temer a Deus
No Brasil, a contradição é cotidiana. O país é majoritariamente religioso — 83% da população se declara cristã segundo o Censo de 2022 —, mas continua entre os mais violentos do mundo. O Atlas da Violência 2024 mostra taxas elevadas de homicídio, concentradas em jovens, homens e moradores das periferias. Muitos dos que aplaudem chacinas se apresentam como “tementes a Deus”. Deputados que abençoam a corrupção citam versículos bíblicos em plenário. Pastores e padres que defendem massacres policiais levantam as mãos ao céu. A fé aqui serve como biombo para o autoritarismo.

Essa contradição não é exceção, é regra histórica. Os colonizadores que escravizaram milhões de africanos diziam agir “em nome de Deus”. As fogueiras da Inquisição queimaram mulheres, cientistas e hereges sempre com a cruz à frente. As ditaduras latino-americanas receberam bênçãos eucarísticas antes de torturar e matar. Não existe registro de genocídio praticado em nome de entidades demonizadas — mas há séculos de sangue derramado em nome de Deus, da ordem e da moral cristã.
O que dizem os dados: religião e violência
Relatórios do Institute for Economics & Peace mostram que os países menos religiosos tendem a ocupar as primeiras posições no Índice Global da Paz. Islândia, Irlanda e Nova Zelândia são exemplos de sociedades altamente laicas, com Estados que não confundem púlpito e tribunal. Já os países mais violentos aparecem associados a contextos de forte religiosidade institucionalizada e fundamentalismos ativos, como Afeganistão, Sudão do Sul e Síria. A correlação não é absoluta — guerras também nascem de disputas econômicas —, mas o dado é revelador: sociedades mais seculares tendem a ser mais pacíficas.
Outro ponto: onde a liberdade religiosa é restrita e o Estado privilegia uma fé em detrimento de outras, a violência cresce. A hostilidade religiosa alimenta perseguições, massacres e guerras civis. Não é a fé íntima o problema; é a sua captura por projetos de poder. O resultado é previsível: exclusão, intolerância e morte.
Se todos fossem ateus…
Acabaria a desculpa transcendental para o terror “em nome de Deus”, para as guerras santas, para a perseguição a hereges, para a censura do corpo e da palavra sob alegação de pureza moral. Isso, por si, não criaria paz automática — desigualdade, imperialismo, disputas territoriais e autoritarismos se bastam sem Bíblia, Torá, Alcorão ou qualquer liturgia. Mas retiraria da violência uma das suas armaduras simbólicas mais resistentes.
Os dados apontam saídas menos místicas e mais concretas: democracias funcionais, baixo nível de corrupção, igualdade de gênero, liberdades civis, educação laica de qualidade e instituições que tratem todos como cidadãos, não como fiéis. Onde isso existe, a paz tende a prosperar — independentemente da religião das pessoas. É o que mostram, ano após ano, os indicadores de paz e os diagnósticos que comparam países e suas políticas.