O assassinato do cão Orelha ganhou repercussão nacional não apenas pela brutalidade do ato, mas porque revelou um fenômeno mais amplo, recorrente e ainda pouco enfrentado pelas autoridades brasileiras: a prática sistemática de violência extrema contra animais transmitida ao vivo em plataformas digitais, especialmente em ambientes fechados como grupos de Discord, fóruns e salas privadas de streaming.
A gravidade do caso foi sintetizada na fala da juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, ao afirmar que “o que adolescentes fizeram com o cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, ao vivo no Discord”. A declaração não surge do nada. Ela reflete anos de monitoramento, investigações judiciais e relatórios produzidos por órgãos como o Conselho Nacional de Justiça, o Ministério Público e entidades especializadas em crimes cibernéticos.
Dados da SaferNet Brasil, organização que atua no recebimento de denúncias de crimes e violações de direitos humanos na internet, apontam crescimento contínuo de conteúdos envolvendo tortura de animais, incitação à violência e práticas sádicas compartilhadas entre jovens. Parte desse material circula em ambientes criptografados ou de acesso restrito, o que dificulta a atuação policial e favorece a sensação de impunidade.
A fala da juíza é especialmente relevante porque rompe com a ideia de que esses episódios são desvios isolados. Ao contrário, trata-se de um padrão. Investigações conduzidas em diferentes estados mostram que adolescentes envolvidos nesse tipo de crime frequentemente participam de comunidades online que estimulam desafios violentos, competições por crueldade e a monetização do sofrimento. Animais se tornam alvos preferenciais por serem vistos como vidas descartáveis e por oferecerem menor risco imediato de responsabilização.
Especialistas em segurança pública e psicologia forense alertam que a violência contra animais é um indicador consistente de outras práticas violentas. Relatórios internacionais, como os do FBI e de agências europeias de combate ao crime organizado, já estabeleceram correlação entre crueldade animal, violência doméstica e crimes contra pessoas. No Brasil, esse debate ainda avança lentamente, esbarrando na falta de estrutura investigativa e na subestimação institucional do problema.
Outro aspecto destacado por magistrados e promotores é o papel das plataformas digitais. Embora empresas afirmem colaborar com autoridades, a velocidade de disseminação dos conteúdos e a dificuldade de rastreamento permitem que redes inteiras operem por longos períodos sem interrupção. O caso Orelha evidencia essa falha sistêmica. Houve transmissão, audiência, circulação e, em muitos casos, silêncio.
O comentário da juíza Vanessa Cavalieri aponta para uma responsabilidade coletiva. Não se trata apenas de punir indivíduos, mas de enfrentar uma cultura digital que normaliza a brutalidade e transforma a violência em espetáculo. Enquanto esses crimes continuarem sendo tratados como exceção ou como “coisa de internet”, novas vítimas surgirão.
O assassinato do cão Orelha não é apenas uma tragédia isolada. É um alerta institucional, jurídico e social sobre o que acontece longe das câmeras oficiais, mas diante de centenas de espectadores anônimos, todas as noites, no Brasil.
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