Beyoncé ocupa hoje um lugar absolutamente fora da curva. Um lugar que mistura mito, indústria, estética, capital, poder simbólico e engenharia empresarial num nível que pouquíssimas figuras culturais conseguiram alcançar. Ela não é só uma artista de sucesso. Ela é um sistema. Um corpo que virou marca, uma voz que virou plataforma, uma estética que virou linguagem global. E sim, isso é genial. Mas isso não é neutro. Poder nunca é neutro. E justamente por isso ela merece mais do que aplauso automático. Ela merece análise.
Porque junto com essa ascensão monumental vem também uma transformação delicada. Beyoncé deixou de ser apenas quem ocupa a mesa. Ela virou parte de quem define as regras da mesa. E isso muda tudo. Quando alguém atravessa a fronteira entre ser apenas explorada pelo sistema e começar a operar dentro da lógica do sistema, nasce uma zona cinzenta. É aí que mora a contradição. E é aí que mora a crítica legítima.
Em 2016, por exemplo, a marca Ivy Park, criada como uma joint venture entre a Parkwood Entertainment e a Topshop, foi alvo de denúncias sérias. Investigações jornalísticas no Reino Unido apontaram que roupas da marca eram produzidas por trabalhadoras em fábricas fornecedoras no Sri Lanka, ligadas à MAS Holdings, recebendo salários extremamente baixos, algo em torno de R$ 22 por dia na cotação da época, enfrentando jornadas longas e condições descritas como degradantes. Organizações como a Anti-Slavery chamaram atenção para o fato de que essas cadeias terceirizadas permitem que grandes marcas lucrem mantendo distância formal da exploração concreta.
A defesa da Ivy Park foi a clássica defesa corporativa: auditorias éticas, cumprimento das leis locais, salários acima do mínimo regional. Tudo dentro da legalidade. E aí mora exatamente o problema. Legalidade não é sinônimo de justiça. Cadeias globais de produção são desenhadas para que ninguém seja diretamente responsável, mas todo mundo lucre. Beyoncé não montou fábrica. Mas Beyoncé lucrou da estrutura que existe justamente para baratear corpos, tempo e trabalho longe dos holofotes.
Em 2018, ela rompeu com a Topshop, comprou a parte da empresa e depois relançou a marca com a Adidas, após escândalos envolvendo o controlador da Arcadia Group por abuso e racismo. Isso foi um gesto político importante. Mas não apaga o fato de que ela já estava, sim, operando dentro da engrenagem que ela, em outros momentos, denuncia.
Então sim: eu admiro Beyoncé. E sim: eu tenho críticas aos movimentos de poder dela.
Porque existe uma diferença entre ocupar espaços e reproduzir lógicas. Existe uma diferença entre construir sua própria mesa e começar a cobrar pedágio de quem passa perto dela. Existe uma diferença entre subverter o jogo e aprender a jogá-lo tão bem que você vira parte do tabuleiro.
O desconforto que ela gera não vem só do fato de ser bilionária. Vem do fato de que ela mostra como o capitalismo contemporâneo é capaz de absorver qualquer discurso, qualquer estética, qualquer luta, transformar isso em produto e vender de volta embalado em empoderamento. Beyoncé é brilhante, mas ela também é um espelho incômodo. Ela nos obriga a encarar que nem todo sucesso é libertação, que nem todo poder é emancipação, que nem toda vitória coletiva continua sendo coletiva quando vira patrimônio privado.
Ela não é vilã. Mas também não é santa. Ela é o retrato mais sofisticado do nosso tempo: onde resistência vira marca, onde política vira estética, onde emancipação vira business plan.
E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão difícil de engolir. Porque ela não cabe nas categorias fáceis. Ela não é só inspiração. Ela é contradição viva. Ela é sintoma. Ela é genialidade. Ela é problema. Ela é potência. Ela é risco.
E tudo isso ao mesmo tempo!

Beyoncé
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