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Não é só o futebol que nos orgulha “lá fora”. Cinema nacional e presidente Lula

AI Brain

Durante décadas, quando o Brasil era citado “lá fora”, o imaginário dominante insistia em resumir tudo ao futebol, ao carnaval e a um exotismo confortável para quem olha de fora. Esse roteiro começa a ruir. O Brasil que hoje atravessa festivais, premiações e mesas diplomáticas é outro. Um país que volta a falar alto por meio do cinema, da arte e de uma presença política que, goste-se ou não, voltou a ser respeitada no tabuleiro internacional. O orgulho, agora, não cabe mais numa chuteira.

O cinema brasileiro vive um momento de afirmação que não surge do nada, nem por milagre. Surge de trabalho, investimento, memória e coragem criativa. A recente trajetória de O Agente Secreto, protagonizado por Wagner Moura, é um exemplo cristalino. O filme conquistou quatro indicações ao Oscar 2026, um feito que não pode ser tratado como exceção folclórica. Trata-se de reconhecimento técnico, estético e político. O mundo está olhando para o Brasil não como curiosidade, mas como linguagem cinematográfica madura, complexa e universal.

Wagner Moura indicado so Oscar 2026

Antes dele, Ainda Estou Aqui já havia provocado um verdadeiro abalo emocional no país. O filme mobilizou público, crítica e debate, atravessando fronteiras com força rara. A atuação de Fernanda Torres foi premiada no Globo de Ouro, e a obra alcançou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não é detalhe. É sintoma de um Brasil que volta a se contar com dignidade, densidade histórica e apuro estético. O cinema brasileiro deixou de pedir licença.

Essas conquistas não são ilhas isoladas. Elas dialogam diretamente com um contexto político que recolocou o Brasil em circulação internacional. A figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ser recebida com interesse real por lideranças globais, universidades, fóruns multilaterais e organismos culturais. Convites que simplesmente não existiram durante o governo Bolsonaro reaparecem com naturalidade. Não por carisma pessoal apenas, mas porque o Brasil voltou a ser percebido como interlocutor possível, previsível e culturalmente relevante.

Há algo  muito importante nesse movimento. Cultura e diplomacia caminham juntas. Países que desprezam a arte, que atacam artistas e tratam cultura como gasto supérfluo se tornam irrelevantes. O governo anterior escolheu esse caminho e pagou o preço do isolamento. Com Lula, mesmo com todas as contradições e limites, abre-se novamente um espaço de diálogo. O Brasil volta a sentar à mesa, e o cinema chega junto, como cartão de visitas.

Nada disso apaga tensões internas nem deve ser romantizado. O Brasil profundo segue desigual. A base cultural que sustenta essa projeção internacional continua sendo majoritariamente construída por descendentes de africanos e povos indígenas, responsáveis pelo samba, pela culinária, pela arquitetura social, pela musicalidade e por grande parte da inteligência criativa do país. Ainda assim, esses sujeitos seguem empurrados para depois, para amanhã, para um futuro que insiste em atrasar. O reconhecimento internacional não pode servir de cortina para silenciar essas urgências.

Pontos que necessitam de atenção urgente.

É preciso dizer com firmeza e honestidade. Mesmo com avanços no campo cultural, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda caminha de forma lenta quando o assunto é poder real para o povo preto descendente de África. Quando olhamos para os ministérios centrais, para as áreas que decidem orçamento, política econômica, juros, crédito e prioridades de investimento, a composição segue majoritariamente branca. Pessoas pretas até aparecem, mas quase sempre em posições laterais, com pouco alcance decisório. Isso não é detalhe administrativo. Isso define quem decide o rumo do país e quem apenas executa decisões tomadas por outros.

O mesmo padrão se repete em espaços máximos de autoridade institucional. As indicações ao Supremo Tribunal Federal continuam ignorando a presença de juristas pretos, mesmo em um país onde a maioria da população descende de África. Essa ausência revela muito mais do que escolhas individuais. Ela expõe uma lógica histórica de poder que atravessa governos, partidos e discursos progressistas. A equipe que cerca Lula, formada em sua maioria por pessoas brancas, reproduz uma ideia antiga de confiança, competência e legitimidade associada à branquitude, enquanto o povo preto segue sendo visto como base eleitoral, força cultural e número estatístico, mas não como centro de decisão.

Isso exige crítica direta, inclusive ao próprio Brasil enquanto projeto de nação. Celebrar conquistas internacionais no cinema, na diplomacia e na cultura é necessário, mas insuficiente se a estrutura interna de poder continua operando como sempre operou. O país que exporta filmes premiados e discursos bem recebidos precisa enfrentar a contradição de manter, dentro de casa, uma elite política que decide sozinha os rumos econômicos e jurídicos. A diferença do atual governo é a existência de diálogo e pressão possível. Cabe à sociedade transformar esse espaço em cobrança permanente, porque sem redistribuição concreta de poder, o reconhecimento externo corre o risco de virar apenas mais um capítulo elegante de um problema antigo.

O cinema brasileiro mostra que sabemos contar nossas histórias com complexidade e beleza. A política externa indica que o mundo voltou a nos ouvir. Falta agora alinhar esse reconhecimento com justiça interna, com políticas que não empurrem eternamente para depois aqueles que sempre sustentaram o Brasil de pé. O orgulho “lá fora” só será completo quando fizer sentido também aqui dentro.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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