Vivendo e aprendendo a jogar…
Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo. Essa frase cantada por Elis Regina durante anos foi, para mim, uma definição aceitável da realidade. A existência como um jogo onde ora vencemos, ora tropeçamos. Mas algo mudou. Com o tempo, percebi que não era apenas jogador: era também quem define as regras.
Hoje, compreendo que é a forma como interpreto os fenômenos — e não os fenômenos em si — que define se estou ganhando ou perdendo. Quando recebi, por exemplo, a notícia inesperada de que teria que deixar a casa onde eu Pago um quarto alugado, escolhi permanecer em neutralidade. Não por apatia, mas por compreensão: a realidade não é fixa.
A neurociência explica que aquilo que percebemos como “realidade” são apenas sinais elétricos interpretados pelo cérebro. Nossos olhos não veem diretamente o mundo. Eles captam luz, que é convertida em impulsos nervosos. O som é vibração. O toque é traduzido em sinal elétrico. Tudo aquilo que você julga sólido é uma tradução neurológica. Como afirma o psquiatra Karl Pribram, a realidade não é percebida diretamente: ela é reconstruída pelo cérebro em um tipo de holograma sensorial.
Essa consciência abre uma porta. Se aquilo que vejo depende da minha interpretação, então posso alterar minha realidade ao alterar meus filtros. E é aqui que entra a epigenética. Bruce H. Lipton, cientista celular e autor do livro A Biologia da Crença (2005), demonstrou que os genes não são destino. Em suas pesquisas com culturas celulares, Lipton revelou que o ambiente — inclusive o ambiente mental e emocional — pode alterar a expressão gênica.
Ou seja: somos menos produto da herança genética do que da forma como interagimos com o mundo. E essa interação é atravessada por linguagem, crenças, experiências e memórias transgeracionais.
A psicologia, desde Freud e Jung, nos alerta para a existência do inconsciente. Mas pouco se discute que esse inconsciente também foi colonizado. A religião — sobretudo o cristianismo eurocentrado — redefiniu a relação dos povos com o sagrado, substituindo a experiência direta com o divino por culpa, intermediação e obediência. A espiritualidade foi domesticada.
Essa domesticação cristã do mundo transformou deuses em demônios, saberes em pecados, e corpos em instrumentos de punição. O colonialismo não sequestrou apenas terras: sequestrou a percepção de realidade dos povos. Através da imposição de um Deus branco, masculino e distante, destruiu-se a conexão direta com o divino que já habitava cada corpo.
Hoje, esse sequestro persiste via sistemas educacionais, mídia de massa e dogmas. O controle não se faz mais com espada, mas com narrativas. Como escreveu George Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”
E a física moderna corrobora tudo isso. A teoria quântica revela que não existe matéria fixa: há campos de energia vibrando em estados de potencialidade. A famosa experiência da dupla fenda mostra que o comportamento de partículas muda conforme são observadas.
Ou seja: é a consciência que define o comportamento da realidade. Como afirma o prêmio Nobel de Física Eugene Wigner, “não se pode ignorar o papel da consciência na definição da realidade”.
E o que isso significa, na prática? Que tudo o que você percebe como permanente é apenas uma frequência que você está sintonizando. Os impérios caem. As casas mudam. Os corpos envelhecem. Tudo é transitório. Como ensinou Buda, tudo é impermanente.
A realidade é o que aparece dentro do campo da sua percepção. E se você muda a qualidade da sua presença, muda o que aparece.
A pergunta não é mais “como mudar o mundo?”. A pergunta é: qual realidade você escolhe experienciar?
Referências para aprofundamento:
• A Biologia da Crença — Bruce H. Lipton (2005)
• O Universo Autoconsciente — Amit Goswami
• Você é o Universo — Deepak Chopra e Menas Kafatos
• What the Bleep Do We Know!? (Documentário, 2004)
• The Mind, the Brain and Quantum Physics (Documentário, 2007)
• O Poder do Subconsciente — Joseph Murphy
• Publicações sobre a Epigenética e neuroplasticidade na revista Nature e Science
A realidade é plástica. O universo está em fluxo. E você é mais do que um ser reagindo ao mundo.
Você é o próprio campo observando a si mesmo. E agora que você se lembrou disso: o que escolhe experienciar?