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Na Bahia, professora é apedrejada por alunos após aula sobre cultura afro-brasileira

AI Brain

A professora Sueli Santana, de 51 anos, foi apedrejada por alunos após ministrar uma aula sobre cultura afro-brasileira na Escola Rural Boa União, localizada em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. O ataque ocorreu em outubro deste ano, mas só ganhou repercussão nesta terça-feira (26). O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e gerou grande comoção e indignação.

Sueli, que também é praticante de uma religião de matriz africana, relatou que sofre agressões verbais constantes na escola, sendo frequentemente alvo de ofensas por parte de alunos e colegas.

Professora apedrejada na Bahia, 2024.

Em uma entrevista exclusiva ao portal G1, ela relatou: 

“Sempre fui chamada de bruxa, macumbeira, feiticeira e diabólica, todos os dias, quando chegava na escola”, contou a professora.

O episódio ocorreu logo após uma aula na qual Sueli abordava a história e as contribuições culturais afro-brasileiras, tema obrigatório no currículo escolar desde 2003, mas ainda enfrentado com resistência em diversas regiões do país. Segundo a docente, o grupo de estudantes a seguiu ao final da aula e lançou pedras contra ela, em um ataque que ela descreve como fruto de preconceito religioso e racial.

A Secretaria de Educação de Camaçari condenou o ocorrido e informou que está acompanhando o caso, oferecendo apoio à professora. Organizações de direitos humanos e movimentos sociais também se manifestaram, classificando o ataque como mais um exemplo da intolerância e do racismo estrutural presentes na sociedade brasileira.

Especialistas alertam que situações como essa reforçam a necessidade de políticas educativas mais robustas e do fortalecimento de uma cultura de respeito à diversidade nas escolas. Sueli, apesar de todo o sofrimento, reafirma sua missão como educadora. “Não vou desistir de ensinar. É por isso que luto todos os dias: para que os jovens compreendam e valorizem a diversidade e a história do nosso povo”, declarou.

O caso reacende debates sobre o combate ao racismo e à intolerância religiosa, destacando os desafios que educadores enfrentam ao abordar temas essenciais para a construção de uma sociedade mais igualitária.

A Lei 10.639, sancionada em 9 de janeiro de 2003, representou um marco histórico para a educação no Brasil. Ela tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas do país, tanto públicas quanto privadas, buscando combater o racismo e valorizar as contribuições dos povos negros para a formação da sociedade brasileira. Em 2008, a Lei 11.645 ampliou essa obrigatoriedade, incluindo também a história e cultura indígena. No entanto, mais de duas décadas após sua aprovação, a lei ainda é amplamente descumprida, deixando um vazio na formação educacional e cultural de milhões de estudantes.

A legislação prevê que o currículo escolar inclua conteúdos que abordem a história da África, a luta dos povos negros e indígenas no Brasil, além das contribuições dessas culturas nas áreas social, econômica e política. Entretanto, diversos fatores dificultam sua aplicação, como a falta de formação adequada para professores, resistência de setores conservadores e a ausência de fiscalização e incentivos por parte do poder público.

Na prática, muitas escolas ignoram a lei ou tratam os temas de forma superficial, reduzindo a riqueza e a complexidade das culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas a atividades pontuais ou comemorativas, como o Dia da Consciência Negra. Esse descumprimento reflete o racismo estrutural e a marginalização histórica que essas populações enfrentam, perpetuando a invisibilidade de suas contribuições na formação da identidade brasileira.

Estudiosos apontam que o descumprimento da lei não é apenas um problema de implementação, mas também um reflexo de um sistema educacional que ainda prioriza narrativas eurocêntricas e ignora a diversidade cultural do país. A falta de materiais pedagógicos adequados e a resistência ideológica de certos grupos dificultam ainda mais a consolidação da lei como uma prática educacional transformadora.

Movimentos sociais e educadores comprometidos com a justiça social continuam a lutar pela aplicação efetiva da Lei 10.639, promovendo a formação de professores e o desenvolvimento de materiais didáticos que respeitem a diversidade cultural do país. Para eles, garantir o ensino das histórias e culturas africana, afro-brasileira e indígena não é apenas uma questão de cumprir a lei, mas um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e consciente de sua própria história.

A aplicação plena da Lei 10.639 não é apenas uma obrigação legal, mas uma necessidade urgente em um país que ainda lida com desigualdades raciais profundas. Resgatar e valorizar as histórias e culturas marginalizadas é essencial para que o Brasil possa, de fato, abraçar sua identidade multicultural e avançar no combate ao racismo e à exclusão social.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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