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Hugo Motta envia pedido pro Conselho de Ética para afastar cinco deputados após motim na Câmara.

AI Brain

Na última sexta-feira, 8 de agosto de 2025, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou uma decisão inédita e que já provoca repercussões intensas no meio político: o afastamento, por até seis meses, de cinco parlamentares envolvidos em um episódio classificado como “motim” nos corredores e no plenário da Casa. Entre os nomes, estão figuras conhecidas por discursos inflamados e presença constante em pautas de confronto político: Marcos Pollon (PL-MS), Zé Trovão (PL-SC), Júlia Zanatta (PL-SC), Marcel van Hattem (Novo-RS) e Camila Jara (PT-MS).

O episódio é consequência direta da ocupação da Mesa Diretora da Câmara por um grupo de deputados, em protesto contra decisões regimentais e agendas legislativas. A cena, que circulou nas redes sociais, incluiu discursos exaltados, gestos de desafio e até um momento em que a deputada Júlia Zanatta, com a filha pequena nos braços, se posicionou no centro da ação — algo que provocou críticas e denúncias ao Conselho Tutelar.

Mas, para entender o peso dessa decisão e o que ela significa no tabuleiro político, é preciso analisar três dimensões: o contexto que levou ao motim, as consequências regimentais do afastamento e o impacto dessa medida no clima político já polarizado do país.

O que é, afinal, o “motim” no contexto da Câmara?

No jargão parlamentar, “motim” não é um termo meramente retórico. Ele descreve atos que buscam obstruir deliberadamente o funcionamento regular das atividades legislativas, desrespeitando normas internas e decisões da Mesa Diretora. É, em suma, um desafio direto à autoridade da presidência da Casa e uma quebra de decoro parlamentar.

No caso recente, o motim foi desencadeado por um protesto contra mudanças na pauta e no processo de votação. Os deputados afastados ocuparam fisicamente a Mesa Diretora, impedindo que os trabalhos prosseguissem. A ação foi transmitida ao vivo e repercutiu intensamente nas redes sociais, dividindo opiniões: para apoiadores, foi um gesto legítimo de resistência; para críticos, um espetáculo irresponsável e antidemocrático.

A decisão de Hugo Motta: inédita ou necessária?

Hugo Motta, no comando da Câmara, decidiu aplicar o afastamento cautelar de até seis meses aos cinco parlamentares, encaminhando o caso ao Conselho de Ética. Essa decisão não é comum — afastamentos desse tipo, ainda mais preventivos, são raros e costumam ocorrer apenas em situações de gravidade evidente, como quando há risco de continuidade da quebra de decoro ou de interferência no andamento das investigações.

Na prática, a decisão de Motta foi um recado claro: a liderança da Câmara não vai tolerar ações que desafiem a autoridade institucional ou que transformem o plenário em palco de disputas performáticas. A medida foi amparada em um ofício conjunto de três partidos — PT, PSB e PSOL — que denunciaram a conduta dos parlamentares e pediram providências imediatas.

Conselho de Ética: o próximo capítulo

O afastamento decidido por Hugo Motta não encerra o caso. Agora, o processo segue para o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, que terá a tarefa de analisar se os deputados afastados de fato cometeram quebra de decoro e se a suspensão deve ser mantida, reduzida ou até transformada em cassação de mandato.

O Conselho de Ética é composto por parlamentares indicados proporcionalmente pelos partidos, o que significa que a decisão final também será influenciada por negociações políticas e alinhamentos partidários. Não é segredo que, nesse tipo de processo, a interpretação do que é “quebra de decoro” pode variar bastante conforme o interesse da bancada ou da legenda envolvida.

O jogo político e a narrativa nas redes

Se, de um lado, a medida busca reafirmar a autoridade institucional da Câmara, de outro, abre espaço para que os deputados afastados construam uma narrativa de “perseguição política” — algo que, no ambiente polarizado de 2025, tende a ganhar força entre seus apoiadores.

Figuras como Zé Trovão e Marcos Pollon já têm histórico de usar episódios de punição ou polêmica como combustível para mobilizar suas bases, apresentando-se como “vítimas” de um sistema que tentaria silenciar vozes divergentes. Júlia Zanatta, com sua forte presença em redes sociais, certamente também explorará a suspensão para reforçar seu discurso combativo.

Essa estratégia não é nova: políticos em situações de crise costumam deslocar o foco do debate do mérito da acusação para a suposta injustiça do processo, criando um campo de batalha simbólico que extrapola os limites do Parlamento.

A polêmica da presença da filha de Júlia Zanatta

Um dos pontos que mais chamou atenção no episódio foi a presença da filha pequena de Júlia Zanatta no plenário, em meio ao motim. A imagem, amplamente compartilhada, gerou forte reação pública. Houve quem visse o gesto como um recurso midiático calculado; outros, como uma atitude imprudente que expôs uma criança a um ambiente de tensão e risco. O caso foi levado ao Conselho Tutelar, acrescentando mais uma frente de pressão sobre a parlamentar.

Essa dimensão pessoal — misturando maternidade e política em um contexto de conflito — acabou ampliando a repercussão do episódio, mostrando como a política brasileira, cada vez mais, é travada tanto nas instituições quanto nas arenas simbólicas das redes sociais.

O que está em jogo para o futuro

Independentemente do desfecho no Conselho de Ética, o episódio sinaliza uma tendência preocupante: a crescente teatralização da política, onde a disputa de narrativas muitas vezes sobrepõe-se à construção de consensos e ao debate qualificado de políticas públicas.

O afastamento desses cinco deputados também reforça a importância das regras internas da Câmara, que existem justamente para evitar que a divergência política descambe para a obstrução física e para o caos institucional. Ao mesmo tempo, levanta a discussão sobre os limites da autoridade da Mesa Diretora e o risco de que medidas disciplinares sejam usadas como instrumento de retaliação política.

No curto prazo, a suspensão pode alterar votações importantes, já que cada voto conta em um Congresso fragmentado. No médio e longo prazo, porém, o impacto mais significativo será na narrativa política que cada lado conseguirá construir a partir desse episódio — e isso pode influenciar diretamente a disputa eleitoral de 2026.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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