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Fim da amizade: “Trump descartou Bolsonaro porque não suporta perdedores”, diz ex-embaixador dos EUA.

AI Brain

A fala de John Feeley sobre Trump abandonar Bolsonaro por enxergá-lo como um “perdedor” ajuda a entender algo que muitos fingiram não ver durante anos: aquela aproximação nunca foi diplomacia, foi espetáculo. Não havia projeto de Estado, não havia cálculo estratégico de longo prazo, não havia interesse real no Brasil enquanto país. Havia um jogo de espelhos entre dois personagens obcecados por si mesmos, pela própria imagem e pela sensação de poder. Quando Bolsonaro perdeu a eleição, perdeu também o único capital que o mantinha relevante para Trump: a aparência de força. Em política personalista, derrota é contágio. Quem cai passa a ameaçar a aura do outro.

Trump não opera na lógica das alianças clássicas, das instituições ou da estabilidade internacional. Ele opera na lógica do ego. Ele se move por impulsos, ressentimentos, vaidades e humores. Quem alimenta esse circuito fica perto. Quem deixa de alimentar, é descartado. Bolsonaro foi útil enquanto parecia um símbolo de ascensão autoritária global. Quando virou um ex-presidente isolado, cercado de investigações, sem poder e sem futuro político claro, virou peso morto. E Trump não carrega peso morto.

Isso revela muito mais sobre Trump do que sobre Bolsonaro, mas revela também sobre o tipo de projeto que Bolsonaro representava. Ele nunca construiu relações de Estado. Ele construiu relações de afinidade ideológica rasa, baseada em guerra cultural, negacionismo, ataque à imprensa, ataque à ciência e culto à força bruta. Isso não gera diplomacia. Isso gera dependência. Quando a dependência perde o objeto, sobra o vazio.

É nesse contraste que a política externa do governo Lula ganha sentido. Ela não é guiada por afinidade pessoal, nem por espetáculo, nem por culto a líderes fortes. Ela opera numa lógica que muitos desprezam por parecer “fria”, “lenta” ou “chata”, mas que é exatamente o que sustenta países no tabuleiro internacional: previsibilidade, institucionalidade, multilateralismo e negociação. Lula não é aliado de presidentes, é interlocutor de Estados. Ele conversa com Biden, com Xi Jinping, com líderes africanos, europeus, latino-americanos, árabes e asiáticos porque entende que o mundo não gira em torno de uma figura só, mas de relações que precisam sobreviver às trocas de governo.

Enquanto Bolsonaro apostou tudo numa cartada só e perdeu, Lula diversifica. Enquanto Bolsonaro apostou em alinhamento automático a Washington, Lula aposta em autonomia negociada. Enquanto Bolsonaro trocou diplomacia por live, Lula recupera Itamaraty, embaixadas, fóruns multilaterais, Mercosul, Brics, ONU, G20 e a capacidade do Brasil de ser ouvido como país que propõe, que articula, que media conflitos e que constrói pontes.

Bolsonaro virou perdedor porque apostou num mundo que não existe mais. Um mundo de líderes fortes isolados, de blocos fechados, de obediência automática, de desprezo pelas instituições. Esse mundo se esfarela. A ordem internacional hoje é instável, fragmentada, multipolar e cheia de conflitos cruzados. Nesse cenário, quem só sabe gritar perde espaço. Quem só sabe confrontar vira problema. Quem só sabe impor vira risco. E o risco é descartado.

A fala de Feeley expõe o fim de uma ilusão. Aquela ilusão de que bastava estar ao lado do poder mais forte para ser forte também. Não basta. É preciso construir relevância própria, política externa própria, projeto próprio. Bolsonaro não construiu nada disso. Ele terceirizou sua política internacional para a vaidade de outro líder. Quando essa vaidade mudou de foco, ele ficou sem chão.

O Brasil, por outro lado, volta lentamente a existir como ator político no mundo, não como extensão do ego de alguém, mas como país com interesses, contradições, capacidade de diálogo e peso geopolítico real. Isso não é glamour, não é heroísmo e não rende memes. Rende respeito, espaço e influência. E no mundo real, isso vale mais do que qualquer amizade de ocasião.

No fim, o que esse episódio mostra é simples. Trump não abandonou Bolsonaro por princípios. Abandonou porque Bolsonaro deixou de ser útil ao seu espelho. Lula, ao contrário, não precisa ser amigo de ninguém. Precisa apenas ser reconhecido como chefe de um Estado que voltou a ser levado a sério. E isso, goste-se ou não dele, ele conseguiu fazer.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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