Menu

Fanáticos lavam os pés de Nikolas Ferreira como se o deputado fosse um apóstolo.

AI Brain

A caminhada liderada por Nikolas Ferreira em defesa de Jair Bolsonaro e dos criminosos golpistas de 8 de janeiro escancara o grau de deterioração simbólica que a política brasileira atingiu. Aquilo não foi um ato cívico, nem uma manifestação por direitos. Foi uma encenação cuidadosamente montada para produzir imagens, reforçar vínculos emocionais e reescrever a história recente do país a partir da lógica da fé cega e da idolatria política.

Os acontecimentos de 8 de janeiro estão fartamente documentados. Não há espaço para relativização honesta. Houve invasão das sedes dos Três Poderes, destruição de patrimônio público, ataque direto ao Estado democrático de direito e tentativa explícita de ruptura institucional. Os próprios envolvidos se filmaram, comemoraram, compartilharam vídeos e mensagens. Ainda assim, parte da extrema direita insiste em tratar os criminosos golpistas de 8 de janeiro como vítimas de um sistema opressor, como se fossem presos políticos e não autores de crimes graves.

É nesse cenário que surge a tal caminhada. Um ritual político travestido de manifestação popular, onde o objetivo central não é discutir justiça, legalidade ou responsabilidade, mas reafirmar uma narrativa messiânica. Jair Bolsonaro aparece como líder injustiçado, perseguido por forças ocultas, enquanto seus aliados assumem o papel de porta-vozes de uma suposta verdade revelada. Não se trata de política pública, mas de crença. E crença não exige prova, exige devoção.

O episódio em que apoiadores lavam os pés de Nikolas Ferreira talvez seja o símbolo mais didático dessa lógica. O gesto, historicamente associado à humildade e ao serviço, surge completamente invertido. Não é o líder que se abaixa, são os seguidores que se ajoelham. Não há mensagem de igualdade, há hierarquia simbólica. Um deputado em exercício é elevado à condição de figura quase sagrada, como se sua atuação política estivesse acima de qualquer crítica ou questionamento.

Esse tipo de cena não nasce do acaso. Ela é fruto de anos de mistura deliberada entre religião, ressentimento social e projeto de poder. Púlpitos transformados em palanques, versículos usados como slogans, fé instrumentalizada para blindar líderes e silenciar críticas. O resultado é uma base política que não se organiza em torno de ideias ou programas, mas de lealdade emocional. Quem segue, segue sem questionar. Quem discorda, vira inimigo.

A defesa pública dos criminosos golpistas de 8 de janeiro revela um desprezo profundo pela democracia. Pedir anistia para quem atacou o Estado não é ato de coragem, é normalização do autoritarismo. É dizer, na prática, que a violência política é aceitável quando serve a um determinado projeto. Hoje se pede perdão para quem invadiu prédios públicos. Amanhã se justifica algo ainda pior.

O mais grave é perceber como essa estratégia aposta na infantilização do debate público. Em vez de enfrentar os fatos, constrói-se um teatro emocional. Em vez de discutir leis e instituições, apela-se à fé e à moral seletiva. Em vez de responsabilidade, oferece-se redenção simbólica. A política vira culto, e o culto dispensa reflexão.

A cena dos pés lavados não é apenas ridícula. Ela é perigosa. Ela comunica que certos políticos não são servidores públicos, mas figuras ungidas. Que suas ações não devem ser avaliadas à luz da lei, mas da devoção de seus seguidores. Esse tipo de lógica corrói a ideia de República, porque substitui o princípio da igualdade pelo da submissão.

Enquanto isso, o país real segue enfrentando problemas estruturais graves. Desigualdade social, precarização do trabalho, crise ambiental, violência cotidiana, abandono das políticas públicas. Nada disso aparece no centro dessas manifestações. O foco é sempre o líder, o mito, a narrativa de perseguição. É um projeto que se alimenta do caos simbólico e da confusão deliberada entre fé e poder.

Defender os criminosos golpistas de 8 de janeiro não é defender liberdade. É atacar a democracia. Lavar os pés de um deputado não é gesto espiritual elevado. É sinal de alienação política profunda. E tratar isso como algo normal é aceitar que o debate público brasileiro continue sendo sequestrado por fanatismo, espetáculo e culto à personalidade.

Nós por nós 🔥

Se esse conteúdo faz sentido pra você. Ajude este perfil a continuar ativo nas redes.

Há diversas formas de apoio:

💥Compartilhando agora esse conteúdo.

📘 Apoie adquirindo o livro África para Colorir – Princesas e Rainhas Africanas.

Link na bio do Instagram @wanderson_dutch ou direto na www.amazon.com

💸 Contribuição simbólica: $5, $15, $100, $5000 ou o que fizer sentido pra você.

💸 Pix: [email protected]

💸 Pix: 11 94266-8910

💰 PayPal: [email protected]

🌐 Acesse: www.lermais.com.br

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

Leia Também

A técnica secreta para curar suas feridas emocionais de uma vez por todas

A técnica secreta para curar suas feridas emocionais de uma vez por todas

As feridas emocionais são cicatrizes invisíveis que se formam ao longo de nossas vidas, resultado de experiências dolorosas, traumas e...

Jovem africano de 14 anos cria sabonete para tratar câncer de pele.

Jovem africano de 14 anos cria sabonete para tratar câncer de pele.

A cada geração, o mundo se surpreende com a capacidade dos africanos e seus descendentes de reinventar o presente e...