Todo ano eleitoral, o povo negro enfrenta um desafio que atravessa gerações: colocar suas candidaturas em evidência num tabuleiro que não foi desenhado para isso. Essa dificuldade não é acidental. Ela é resultado de uma engrenagem que segue reservando as carreiras políticas, em sua maioria, para grupos que já concentram poder econômico, influência partidária e acesso direto aos grandes financiadores de campanha. Não é por acaso que, mesmo sendo maioria da população brasileira, pessoas negras ainda ocupam uma parcela muito menor dos espaços de decisão, um descompasso que se repete eleição após eleição, quase como se fosse regra do jogo.
Ao revisitar a frase de Pelé, “Se o negro quer que se tenha uma melhora na sua posição social e uma melhora do Brasil de uma maneira geral, temos de botar a gente no Congresso para defender a nossa raça”, vale ir além da polêmica em torno de quem a disse e observar a provocação que ela carrega até hoje: quem ocupa os espaços de poder influencia diretamente quais pautas recebem atenção, orçamento e prioridade. Política não é apenas discurso, é distribuição concreta de recursos, e essa distribuição responde a quem está na mesa de decisão.
## Uma Câmara que quase não se renova
Essa reflexão ganha ainda mais peso diante de um dado preocupante: a Câmara dos Deputados pode registrar uma das menores taxas de renovação da história, com cerca de 87% dos parlamentares tentando a reeleição. Quanto menor a renovação, maiores tendem a ser as barreiras para quem disputa uma vaga pela primeira vez, especialmente candidatos e candidatas que não pertencem às estruturas políticas tradicionais e que precisam construir, do zero, capital político, financeiro e midiático.
Isso nos leva a uma pergunta incômoda, mas necessária: estamos realmente ampliando a democracia quando elegemos, eleição após eleição, praticamente as mesmas pessoas? Renovação, isoladamente, não garante mudanças reais. Mas a ausência dela quase sempre mantém intactas estruturas que já demonstraram seus limites, e, pior, blinda essas estruturas contra qualquer tipo de prestação de contas mais rigorosa.
Os obstáculos específicos das candidaturas negras
Para as candidaturas negras, esse cenário se torna ainda mais desafiador. Em muitos casos, elas enfrentam menos recursos financeiros, menor tempo de exposição na mídia, redes de apoio mais frágeis e menos espaço nos grandes veículos de comunicação. Enquanto isso, nomes já consolidados partem de uma posição consideravelmente mais confortável, sustentada por estruturas partidárias robustas e por anos de exposição acumulada. Não é raro que lideranças comunitárias, intelectuais, professoras, ativistas e pesquisadoras excelentes permaneçam invisíveis durante todo o processo eleitoral simplesmente porque não conseguem competir nas mesmas condições que os nomes já estabelecidos.
Por isso, antes mesmo de decidir em quem votar, talvez seja importante fazer outra pergunta, mais desconfortável ainda: quem eu realmente conheço? E, principalmente, quem eu nunca tive a oportunidade de conhecer porque essa pessoa nunca recebeu a mesma visibilidade que os nomes de sempre?
Quem é Ruth Lopes

Ruth Lopes -pre-candidata deputa federal PT 2026
E aqui quero falar rapidamente da pré-candidatura de Ruth Lopes, uma candidata de São Paulo muito incrível, muito foda, uma das mentes por trás da existência hoje da Universidade Zumbi dos Palmares. Ruth está à frente do coletivo Frente Negra Online, é uma mulher preta em movimento, socióloga, militante do movimento negro há décadas e com atuação internacional também. Ao longo de mais de duas décadas de trabalho ligado à Zumbi dos Palmares, participou de iniciativas voltadas à ampliação do acesso de jovens negros ao ensino superior, colaborando com programas e bolsas de estudo que impactaram diretamente muitas trajetórias de vida. Independentemente da preferência partidária de cada eleitor, conhecer a história, a experiência e as propostas de candidaturas com esse perfil faz parte de um debate democrático mais amplo e mais honesto.
Nenhuma democracia se fortalece quando o eleitor conhece apenas os nomes que aparecem diariamente na televisão ou nas redes sociais, impulsionados por grandes estruturas de campanha. Uma democracia madura exige curiosidade, pesquisa e disposição genuína para olhar além do óbvio, além do algoritmo, além do que já está posto.
Como romper o ciclo da invisibilidade?
Parte da resposta para romper esse ciclo já está em curso, mas ainda depende de fiscalização e de participação ativa da sociedade. Em julho de 2026, o Supremo Tribunal Federal confirmou a constitucionalidade da Emenda Constitucional 133/2024, que tornou regra permanente na Constituição a destinação de, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário para candidaturas de pessoas pretas e pardas. A decisão também manteve mecanismos importantes, como a compensação de valores não aplicados corretamente em eleições passadas, que devem ser redirecionados nas quatro disputas seguintes. Um caso concreto disso já aconteceu: o TSE determinou que um partido destinasse mais de 15 milhões de reais a ações afirmativas voltadas a candidaturas negras, depois de identificar irregularidades na aplicação de recursos em 2020. A regra existe, o dinheiro está previsto em lei, mas sem cobrança da sociedade civil, do próprio eleitorado e de coletivos organizados, esse recurso corre o risco de ser usado apenas para cumprir formalidade, sustentando candidaturas de fachada em vez de projetos políticos reais e viáveis.
É aí que entra o papel de cada eleitor. Romper o ciclo da invisibilidade passa por um gesto simples e replicável: antes de votar, pesquisar o histórico de gastos e a origem do financiamento de cada candidatura no site DivulgaCandContas do TSE, que é público e gratuito, e verificar se o dinheiro do fundo eleitoral está realmente sendo investido em candidaturas negras de peso, com estrutura, tempo de TV e rádio proporcional e presença real no território, e não apenas em nomes usados para cumprir cota. Somado a isso, coletivos, páginas independentes e veículos de comunicação alternativa cumprem um papel decisivo ao apresentar essas candidaturas fora do circuito tradicional, funcionando como uma espécie de mutirão de visibilidade. Quando o eleitor pesquisa, compartilha e cobra transparência, ele deixa de ser apenas espectador do processo eleitoral e passa a ser parte ativa da fiscalização que garante que a lei, que já existe no papel, se transforme em representação de verdade nas urnas.
Eleger mulheres negras: talvez esse seja o maior desafio do povo preto ano eleitoral deste ano: romper o ciclo da invisibilidade que empurra as mesmas vozes para fora do debate público. Não se trata de votar em alguém apenas pela identidade racial, mas de reconhecer que representatividade, trajetória, compromisso público e atuação concreta são critérios legítimos, e necessários, para avaliar qualquer candidatura.
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