Markus Gabriel, filósofo alemão nascido em 1980, ganhou notoriedade internacional ao afirmar que “o mundo não existe”. A frase, à primeira vista, soa absurda ou provocativa, mas ela sintetiza uma de suas teses centrais desenvolvidas em Por que o mundo não existe (2013). Para Gabriel, a ideia de “mundo” como uma totalidade unificada é uma ficção conceitual: aquilo que chamamos mundo é apenas um termo guarda-chuva, mas que não corresponde a nenhuma entidade real. O que de fato existe são múltiplos campos de sentido, múltiplas realidades locais, cada uma com suas próprias regras e contextos.
Essa proposta, que ele chama de novo realismo, se distancia tanto do relativismo pós-moderno, que mergulhou na descrença generalizada, quanto do realismo clássico, que imaginava um mundo objetivo plenamente acessível à razão. Gabriel sugere que não precisamos escolher entre niilismo ou ingenuidade. O caminho é outro: aceitar que a realidade é plural, fragmentada e irredutível a um todo.
Neurociência: o cérebro como criador de mundos
Curiosamente, a neurociência contemporânea fornece ecos para essa tese. Pesquisas em cognição mostram que o cérebro humano não capta a realidade como ela é, mas sim constrói simulações internas a partir de fragmentos sensoriais. Cada percepção é uma versão possível, não uma cópia fiel do real. O neurocientista Anil Seth, por exemplo, afirma que “estamos todos alucinando, só que em consenso”.
Isso significa que o que chamamos “mundo” é, em grande parte, uma projeção neurológica, um acordo coletivo que organiza experiências. A mente não acessa um “mundo total”, mas camadas fragmentadas de informação. Essa constatação dialoga diretamente com Gabriel: não há prova de que exista um “mundo” uno; há apenas múltiplos campos de experiência que chamamos de real.
Diálogos filosóficos: de Kant a Derrida
Gabriel se insere em uma longa tradição. Kant já havia nos alertado de que não acessamos a “coisa em si”, mas apenas fenômenos mediados por categorias da mente. Derrida, por outro lado, radicalizou o jogo da diferença, mostrando como qualquer texto (ou mundo) é sempre aberto, instável. Gabriel, no entanto, recusa a conclusão relativista de Derrida: para ele, não vivemos no nada, mas em múltiplos algo’s — campos de sentido concretos e reais, embora parciais.
Sua contribuição é resgatar a noção de realidade sem cair no dogmatismo. O novo realismo diz: não existe o mundo, mas existem realidades. A pluralidade não é ilusão; é a estrutura mesma do ser.
Afrocentricidade e a pluralidade de mundos
Se aplicarmos essa lente à perspectiva afrocentrada, a tese de Gabriel ganha um brilho ainda mais profundo. Povos africanos, antes da colonização, nunca precisaram de um conceito de “mundo uno” para existir. Havia cosmologias plurais, onde o visível e o invisível se entrelaçavam. Orixás, ancestrais, forças da natureza — tudo coexistia sem ser reduzido a uma totalidade única.
A imposição europeia de um “mundo único”, regido por um único Deus e uma única narrativa histórica, foi justamente uma forma de violência epistemológica. Colonizar não foi apenas ocupar territórios, mas impor a ficção de que havia apenas um mundo verdadeiro — o deles — e que todos os outros deveriam se dobrar. Nesse sentido, o pensamento de Gabriel pode ser lido como uma desconstrução tardia dessa arrogância ocidental: não existe um mundo, existem muitos mundos.
Essa perspectiva ressoa com o pensamento de filósofos afro-diaspóricos como Achille Mbembe, que fala da “pluriversalidade” como resistência ao universalismo europeu. A pluralidade de Gabriel, lida em chave afrocentrada, ecoa o princípio africano do Ubuntu: “eu sou porque nós somos”, não em um mundo único, mas em uma rede viva de mundos coexistentes.
Implicações políticas e existenciais
Negar a existência do “mundo” não é um exercício de semântica, mas uma crítica política. Se não existe uma totalidade, ninguém pode falar em nome do “mundo inteiro” — nem a ciência positivista, nem a religião dogmática, nem o mercado global. Cada vez que uma instituição se apresenta como porta-voz do mundo, ela está tentando impor seu campo de sentido sobre os demais.
Isso nos devolve responsabilidade: não há um “mundo” pronto para ser obedecido. Há múltiplas realidades possíveis, e somos co-criadores delas. Essa consciência liberta, mas também pesa: se não existe mundo, então o que existe é aquilo que fazemos existir.
O mistério maior que a prova
Quando Gabriel afirma que “não há provas da existência do mundo”, ele não está nos empurrando para o niilismo, mas nos devolvendo ao mistério. Em vez de um universo fechado, temos uma realidade sempre maior do que qualquer conceito. O “mundo” é uma invenção útil, mas limitada. O que realmente existe são campos de sentido, fragmentos múltiplos e coexistentes.
A neurociência nos mostra que até nossa percepção é uma construção. A filosofia africana nos mostra que sempre foi possível viver em mundos plurais. E Gabriel nos lembra que a arrogância de reduzir tudo a um mundo único não se sustenta.
No fim, talvez a grande lição seja esta: não precisamos de provas do mundo, porque o mundo não é uma coisa a ser provada. Precisamos, sim, aprender a viver entre mundos, navegando suas camadas, honrando sua pluralidade e expandindo nossa consciência. E nesse movimento, talvez descubramos que a verdadeira realidade não é uma totalidade fixa, mas uma dança infinita de existências múltiplas.