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A origem preta da bossa nova: a história que quase nunca contam.

AI Brain

Quando se fala em bossa nova, a imagem mais difundida costuma ser a de jovens da classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro, apartamentos em Copacabana, violões sofisticados e praias ensolaradas. Essa imagem existe, mas conta apenas uma parte da história.

A bossa nova nasceu sobre uma base profundamente afro-brasileira.

Na prática, a bossa nova é uma transformação do samba. E o samba, por sua vez, é uma criação histórica das populações afrodescendentes que construíram suas culturas nos terreiros, quintais, rodas de samba e comunidades populares do Rio de Janeiro e da Bahia. Historiadores e musicólogos são unânimes ao reconhecer que o samba possui origem afro-brasileira e foi inicialmente perseguido pelas elites e pela polícia justamente por estar associado à população negra.

A própria estrutura rítmica da bossa nova deriva da síncope do samba. João Gilberto revolucionou a maneira de tocar violão, mas o padrão rítmico que ele recriou vinha diretamente da tradição dos sambistas e percussionistas afro-brasileiros. A bossa nova foi, portanto, uma nova linguagem construída sobre uma herança musical preta.

O nome mais apagado da história: Johnny Alf

Se existe um nome que deveria aparecer ao lado de Tom Jobim e João Gilberto em qualquer livro sobre bossa nova, esse nome é Johnny Alf.

Filho de empregada doméstica, Johnny Alf era um músico preto que já experimentava harmonias sofisticadas, influência do jazz e formas inovadoras de composição antes mesmo da explosão oficial da bossa nova. Muitos dos futuros ícones do movimento frequentavam suas apresentações para ouvi-lo tocar. Diversos pesquisadores o consideram um dos principais precursores do gênero.

Apesar disso, seu nome raramente recebe o mesmo destaque dos artistas brancos que vieram depois.

A influência do jazz também era preta

Existe outra camada frequentemente esquecida.

Uma das grandes influências da bossa nova foi o jazz norte-americano. Mas o jazz também nasceu da experiência histórica da população afro-americana nos Estados Unidos. Ou seja, os dois pilares fundamentais da bossa nova possuem raízes africanas: o samba brasileiro e o jazz estadunidense.

A bossa nova pode ser entendida como um encontro entre duas grandes tradições musicais da diáspora africana.

O embranquecimento da memória

O sucesso internacional da bossa nova acabou concentrando a narrativa em figuras como Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes.

Eles foram fundamentais, mas diversos artistas pretos participaram da construção do movimento e acabaram recebendo muito menos reconhecimento histórico.

Entre eles estão Johnny Alf, Alaíde Costa, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Leny Andrade e Eliana Pittman. Pesquisadores têm chamado atenção para esse apagamento histórico, que reproduz padrões raciais presentes em outros campos da cultura brasileira.

A verdade histórica

Dizer que a bossa nova é um gênero exclusivamente branco é historicamente incorreto.

Dizer que ela surgiu sem participação preta também é incorreto.

O mais preciso é afirmar que a bossa nova foi uma releitura moderna do samba afro-brasileiro, enriquecida pelo jazz afro-americano, desenvolvida em um ambiente de classe média carioca que acabou recebendo maior visibilidade pública e internacional do que muitos dos artistas pretos que ajudaram a construir essa linguagem musical.

Em outras palavras: a bossa nova ficou conhecida pelos apartamentos de Copacabana, mas suas raízes descem muito mais fundo. Elas passam pelos terreiros, pelos quintais das tias baianas, pela Pequena África do Rio de Janeiro, pelos batuques afro-brasileiros e pela longa história musical criada pela população preta no Brasil.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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