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Perderam nas urnas, agora querem mudar o jogo: o voto distrital e o ataque ao seu poder de escolha.

AI Brain

Eleitor, acorde: estão querendo tirar o seu poder de voto. Três dias depois de o povo reeleger Lula nas urnas, o presidente da Câmara, Hugo Motta, foi às redes anunciar a pressa em mudar a forma como escolhemos deputados e vereadores. O nome da mudança soa técnico, quase inofensivo: voto distrital misto. O efeito, porém, pode ser devastador para quem aprendeu a fazer política fora dos currais eleitorais.

A virada que assustou o andar de cima

No dia 25 de outubro, Lula fez o que nenhum candidato havia feito desde a redemocratização: terminou o primeiro turno em segundo lugar e virou o jogo. Foram 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, a maior votação da história do país (DGABC).

Essa virada não caiu do céu. Veio das ruas ocupadas, das periferias que voltaram a votar, dos coletivos, das redes organizadas que furaram a bolha e disputaram cada conversa de família, cada grupo de WhatsApp. A extrema-direita sentiu o golpe. E o Centrão, que vive de administrar o poder sem nunca enfrentar o povo de frente, entendeu o recado: a política em rede escapa do controle deles.

O que está na mesa, e por que a pressa

No dia 28, Motta anunciou uma PEC para instituir o voto distrital misto e disse querer votá-la nas duas Casas ainda em 2026, antes da posse dos novos parlamentares (O Tempo). A proposta prevê uma transição em 2030 e o modelo completo em 2034, e foi costurada primeiro com o bloco de União, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania, Podemos e PSB (Tribuna do Sertão).

Funciona assim: você passa a ter dois votos. Um elege o deputado do seu distrito, uma fatia do mapa. O outro vai para o partido, que preenche a outra metade das cadeiras com uma lista definida pela própria legenda (Terra).

Repare no detalhe: quem quer votar a mudança é um Congresso em fim de mandato, sem prestar contas a ninguém. E a imprensa já relata que a articulação mira os chamados parlamentares influenciadores (Metrópoles). Ou seja, quem se elege pela força do debate público, e não pela emenda, pelo prefeito aliado ou pelo cabo eleitoral.

O caso Erika Hilton: 1,6 milhão de votos picotados no mapa

Erika Hilton

Eleições 2026 – Deputada Federal Erika Hilton.

Erika Hilton foi reeleita com 1.596.472 votos, a mulher mais votada da história da Câmara (Times Brasil). Esse voto não mora num bairro. Está espalhado de Franco da Rocha ao Pontal, da zona leste a Ribeirão Preto. É o voto de uma causa, não de um território.

Agora imagine São Paulo fatiado em distritos. Se as 70 cadeiras paulistas forem divididas meio a meio, seriam cerca de 35 distritos. Erika teria de disputar um só, contra o candidato da máquina local, com a estrutura da prefeitura, das igrejas e das emendas. Os votos de quem a escolheu no resto do estado simplesmente não contariam para ela.

Sobraria a lista partidária. Mas aí quem decide a ordem é a cúpula do partido, não você. O mesmo vale para lideranças negras, indígenas, LGBTQIA+ e de movimentos sociais: gente cuja força está na rede, não no quarteirão.

Quem ganha e quem perde

Os defensores dizem que o distrital aproxima o eleitor do deputado. Na prática, em distrito de vencedor único, o voto que perde vira pó. A minoria que é maioria em lugar nenhum some do mapa. E o vencedor tende a ser quem já tem dinheiro, sobrenome e máquina local.

Ganha o Centrão, especialista em política de território e emenda. Perde a política de ideias, a que nasce no debate, na mobilização e na rede. Não à toa, a proposta enfrenta resistência no PT e até no PL (Metrópoles). Mas atenção: o PT já sinalizou que pode negociar. Pressão vale para adversário e para aliado.

Acorde, eleitor: como barrar isso

Uma PEC precisa de 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa. É muito voto. Dá para barrar, se a gente fizer barulho no lugar certo.

  • Cobre o seu deputado pelo nome. E-mail, direct, comentário, telefone do gabinete. Pergunte publicamente: você vai votar para tirar o poder do meu voto?
  • Ocupe a consulta pública. Vote e comente nas enquetes do portal da Câmara e no e-Cidadania do Senado sobre a proposta.
  • Esteja nas audiências. A comissão especial terá debates públicos. Movimentos, coletivos e especialistas precisam ser ouvidos ali.
  • Exija plebiscito. Mudar a regra de escolha dos representantes do povo sem consultar o povo é inaceitável.
  • Pressione os aliados também. Partido progressista que negociar o seu voto em troca de cargo precisa ouvir das bases.
  • Transforme as redes em trincheira. A mesma organização que virou a eleição pode derrubar essa PEC. Explique, compartilhe, viralize.

O recado é simples. Eles perderam nas urnas e agora querem mudar o jogo. A gente ganhou nas ruas e nas redes, e não vai devolver a bola.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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