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O império da desinformação: como as gigantes da tecnologia transformaram as eleições em uma guerra pelo poder.

AI Brain

Das eleições de 2018 à disputa de 2026, as grandes plataformas digitais se tornaram peças centrais do debate político. O desafio é garantir que algoritmos, interesses comerciais e inteligência artificial não comprometam o direito da população de escolher livremente.

Durante muito tempo, o poder de influenciar uma eleição esteve associado ao dinheiro, ao tempo de televisão, aos grandes veículos de comunicação e às estruturas partidárias. Hoje, uma parte decisiva dessa disputa acontece também nas telas dos celulares. Instagram, Facebook, WhatsApp, YouTube, TikTok e X ocupam um espaço central na circulação de informações, na formação de opiniões e na maneira como milhões de pessoas interpretam a realidade.

Essa transformação levanta uma pergunta fundamental: se as plataformas digitais influenciam o que vemos, compartilhamos e discutimos, quem fiscaliza o poder de quem controla essas plataformas?

2018: quando a disputa política ganhou outra dimensão

As eleições presidenciais de 2018 representaram um marco na utilização das redes sociais e dos aplicativos de mensagens na política brasileira. A campanha de Jair Bolsonaro ganhou projeção em um cenário no qual o WhatsApp se tornou uma importante ferramenta de mobilização, especialmente diante de sua reduzida presença na propaganda eleitoral televisiva do primeiro turno.Eleições 2026

Naquele período, pesquisas e reportagens documentaram a circulação de informações falsas, mensagens enganosas e conteúdos políticos manipulados em redes de compartilhamento. Também surgiram denúncias sobre o financiamento empresarial de disparos em massa de mensagens contra adversários políticos, tema investigado pela imprensa brasileira.

O problema não estava simplesmente na existência de opiniões divergentes. A questão era a capacidade de distribuir conteúdos em grande escala, muitas vezes sem transparência sobre sua origem, seu financiamento ou os responsáveis por sua disseminação.

O WhatsApp não criou a polarização política brasileira. Entretanto, suas características de comunicação privada e compartilhamento facilitaram a circulação de mensagens entre familiares, amigos, comunidades religiosas e grupos políticos, dificultando a identificação pública de redes de disseminação de desinformação.

2022: a desinformação se tornou um desafio permanente

Quatro anos depois, o país chegou a outra eleição presidencial marcada pela polarização e pela disputa em torno da credibilidade das instituições. A desinformação sobre o sistema eleitoral, as urnas eletrônicas e os adversários políticos ocupou espaço importante no debate público.

A pesquisa acadêmica sobre as eleições de 2022 identificou conteúdos potencialmente enganosos circulando no WhatsApp, no Twitter, hoje chamado X, e no Kwai. O estudo demonstrou que cada plataforma apresentava dinâmicas próprias, reforçando a necessidade de investigar a circulação de informações considerando o conjunto do ambiente digital. https://doi.org/10.1093/ijpor/edae032⁠

O episódio também evidenciou um problema estrutural: combater conteúdos falsos depois que eles se espalham não é suficiente. A velocidade de circulação, o alcance das publicações e a confiança depositada em quem compartilha uma mensagem podem dificultar a correção posterior.

As plataformas passaram a firmar acordos com autoridades eleitorais e anunciar medidas de moderação. Ainda assim, permaneceu o debate sobre a transparência dos critérios utilizados para recomendar, restringir ou remover conteúdos.

O negócio por trás da informação

Para compreender o poder das big techs, é necessário observar seus modelos de negócio. Empresas como Meta e Google operam serviços que dependem, em grande medida, da publicidade e da capacidade de atrair e manter a atenção dos usuários.

Nesse contexto, curtidas, comentários, compartilhamentos e tempo de permanência se tornam indicadores relevantes para os sistemas de recomendação. Conteúdos que despertam indignação, medo, entusiasmo ou confronto podem gerar muito engajamento, embora isso não signifique que toda publicação emocional seja falsa ou que os algoritmos sempre privilegiem a polarização.

O problema está na falta de transparência sobre como essas escolhas são feitas e em quais circunstâncias elas podem afetar o debate público.

Uma empresa privada não precisa declarar apoio a determinado candidato para exercer influência política. Suas decisões sobre alcance, publicidade, recomendação e moderação já podem alterar as condições em que diferentes discursos chegam ao público.

Isso não prova, por si só, favorecimento deliberado. Significa que existe uma concentração de poder informacional que precisa ser submetida à fiscalização, à transparência e a regras democráticas.

2026: inteligência artificial e a disputa pela visibilidade

Nas eleições brasileiras de 2026, esse debate ganhou novos contornos. Além da desinformação tradicional, a inteligência artificial ampliou a capacidade de produzir imagens, vídeos, áudios e representações falsas com aparência convincente.

Em outubro, a discussão deixou de ser apenas uma preocupação teórica. O Tribunal Superior Eleitoral cobrou explicações da Meta após denúncias de restrições à distribuição de publicações da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. A empresa atribuiu os problemas apontados a questões técnicas e afirmou que suas regras não favorecem uma orientação política específica. https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-10/tse-manda-meta-esclarecer-restricoes-postagens-da-campanha-de-lula⁠

Em 15 de outubro, o TSE também se reuniu com representantes da companhia para discutir medidas de enfrentamento à desinformação, o uso indevido de inteligência artificial e a preservação de informações relacionadas a canais públicos do WhatsApp. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/tse-ouve-meta-sobre-aprimoramento-de-medidas-para-enfrentamento-da-desinformacao-na-reta-final-das-eleicoes⁠

Esses episódios não autorizam concluir automaticamente que houve manipulação intencional de uma eleição por determinada empresa. Demonstram, porém, a importância de investigar decisões tomadas em sistemas cujos mecanismos internos não são plenamente acessíveis ao público.

Quando uma plataforma pode recomendar um perfil, reduzir o alcance de uma publicação ou aceitar publicidade política, suas decisões deixam de ser apenas questões comerciais. Elas podem adquirir relevância democrática.

Em uma sociedade minimamente civilizada: Liberdade de expressão também exige responsabilidade

Regular as plataformas não significa entregar ao Estado o poder irrestrito de decidir quais opiniões podem circular. Uma política democrática precisa proteger a liberdade de expressão, impedir a censura arbitrária e garantir procedimentos transparentes de contestação.

Ao mesmo tempo, liberdade de expressão não deve servir como justificativa automática para fraudes, publicidade eleitoral irregular, falsificações deliberadas ou campanhas coordenadas de desinformação.

O desafio é construir regras que alcancem todas as forças políticas, com critérios públicos, fiscalização independente e mecanismos de recurso. As plataformas devem explicar suas decisões, permitir auditorias proporcionais e oferecer dados suficientes para que pesquisadores investiguem seus impactos, respeitando a privacidade dos usuários.

Também cabe à sociedade desenvolver educação midiática, fortalecer o jornalismo profissional e estimular a verificação das informações antes do compartilhamento.

O futuro da democracia não pode depender de algoritmos opacos

As eleições de 2018, 2022 e 2026 mostram que a comunicação digital se tornou parte indispensável da política brasileira. As plataformas ampliaram o acesso à informação e abriram espaço para vozes historicamente excluídas dos meios tradicionais. Ao mesmo tempo, criaram novas possibilidades de manipulação, concentração de poder e circulação de conteúdos enganosos.

O debate não deve se limitar a perguntar qual candidato se beneficia de determinada plataforma. A pergunta mais importante é quais garantias existem para que todos os cidadãos possam participar do processo eleitoral com acesso a informações confiáveis e condições democráticas de escolha.

A tecnologia não determina sozinha o destino de uma democracia. Mas as decisões de quem controla sua infraestrutura informacional podem influenciar profundamente a maneira como a sociedade debate, discorda e escolhe seus representantes.

Se uma parcela crescente do debate público acontece em plataformas privadas, a transparência sobre seu funcionamento precisa ser tratada como uma questão de interesse público. A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que ninguém tenha o poder de controlar silenciosamente as condições em que todos pensam.

Para aprofundar o debate

Livro | A Máquina do Caos, de Max Fisher

Uma investigação sobre como as redes sociais, seus modelos de negócio e seus sistemas de recomendação podem contribuir para a polarização e a circulação de desinformação em diferentes países.

Livro | The Age of Surveillance Capitalism, de Shoshana Zuboff

A autora examina a transformação dos dados pessoais em ativos econômicos e as consequências da vigilância comercial para a autonomia individual e a sociedade.

Documentário | O Dilema das Redes (2020)

Disponível na Netflix, o documentário reúne depoimentos de profissionais da indústria tecnológica e discute os efeitos sociais dos mecanismos de recomendação, da coleta de dados e da disputa pela atenção. https://www.netflix.com/title/81254224⁠

Leitura complementar | Pesquisa acadêmica sobre as eleições brasileiras de 2022

O estudo Analyzing Misinformation Claims During the 2022 Brazilian General Election on WhatsApp, Twitter, and Kwai investiga conteúdos potencialmente enganosos recebidos por organizações de checagem e examina diferenças entre as plataformas. https://doi.org/10.1093/ijpor/edae032⁠

A matéria está estruturada para o Ler Mais, com aproximadamente 1.200 palavras, incluindo as recomendações finais. Antes da publicação, vale conferir os links, inserir uma imagem de capa e, se quiser dar ainda mais força à análise, acrescentar um quadro com as regras eleitorais brasileiras para publicidade digital e inteligência artificial em 2026.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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