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Por que tantos eleitores preferem a desqualificação política? Quando a identidade fala mais alto que os resultados.

AI Brain

Existe uma tentação perigosa quando tentamos compreender eleições: concluir que o povo simplesmente “não sabe votar”. A explicação conforta quem observa, mas explica muito pouco. O voto nunca foi apenas uma operação racional entre propostas, resultados e estatísticas. Votamos também a partir de identidade, medo, pertencimento, religião, memória, ressentimento e daquilo que aprendemos a enxergar como ameaça.

No Brasil, isso possui raízes profundas. Nossa democracia nasceu sobre uma sociedade construída pela escravidão, pelo patriarcado e por uma brutal concentração de riqueza e poder. A República chegou sem desmontar essa arquitetura. O direito ao voto se expandiu, mas as condições para exercer plenamente a cidadania nunca foram distribuídas da mesma maneira.

Tarcísio de Freitas, Governador de São Paulo 2026.

Por isso raça, gênero e classe não são detalhes da disputa eleitoral. São parte de sua estrutura. Mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro, mas continuam dramaticamente sub-representadas entre candidatos e eleitos. A população negra é maioria no país, mas pretos e pardos ainda ocupam menos de 30% das cadeiras do Congresso. O poder continua tendo filtros.

Existe ainda outra camada: milhões de brasileiros não escolhem necessariamente quem melhor representa seus interesses materiais. Escolhem quem representa seus valores, sua comunidade, sua igreja, sua percepção de ordem ou, muitas vezes, quem promete derrotar o grupo que aprenderam a rejeitar.

É a política da identidade negativa: “talvez eu nem ame o meu candidato, mas jamais permitirei que o outro lado vença”.

As redes sociais transformaram essa engrenagem. O algoritmo não precisa saber quem apresenta o melhor programa de governo. Precisa descobrir o que mantém alguém olhando para a tela. Indignação, medo, conflito e escândalo são combustíveis extraordinários. Em 2026, o próprio TSE tenta limitar recomendações algorítmicas de candidatos, enquanto especialistas alertam para a dificuldade de fiscalizar sistemas pouco transparentes.

Isso ajuda a entender por que desempenho administrativo e intenção de voto podem caminhar por trilhas diferentes. O eleitor não vive dentro de uma planilha. Vive dentro de uma narrativa.

E talvez esteja justamente aí um dos maiores erros do campo democrático e progressista: acreditar que apresentar números corretos automaticamente produzirá consciência política.

Não produzirá.

Renan Santos candidato a presidência da República em 2026.

Quem deseja disputar a sociedade precisa disputar também linguagem, emoção, território, religião, cultura popular, masculinidade, expectativas econômicas e pertencimento. Precisa chegar onde as pessoas estão antes de exigir que elas cheguem onde gostaríamos que estivessem.

Combater a desqualificação política, portanto, não significa combater o eleitor. Significa enfrentar as estruturas que transformam desinformação em identidade, desigualdade em normalidade e ressentimento em projeto de poder.

Democracia não se sustenta apenas ensinando alguém em quem votar.

Sustenta-se formando uma sociedade capaz de compreender por que vota, quem ganha com seu voto e quais interesses chegam ao poder junto com ele.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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