“Muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo.” — Eduardo Galeano
Nenhum império nasce invencível. Nenhum tirano governa apenas pela força. Nenhuma elite permanece no poder apenas porque possui mais dinheiro, mais armas ou mais influência. Toda estrutura de dominação depende de algo muito mais valioso: a obediência. É por isso que os opressores parecem gigantes. Não porque sejam gigantes, mas porque milhões de pessoas aprenderam a olhar para eles de joelhos.
Ao longo da história, impérios, monarquias, ditaduras, escravocratas e regimes coloniais convenceram populações inteiras de que resistir era impossível. O medo foi transformado em método de governo. A resignação virou virtude. A desigualdade passou a parecer natural. Sempre que um povo acredita que não pode mudar a própria realidade, o poder já venceu antes mesmo de disparar um único tiro.
É justamente por isso que a história precisa ser estudada. Ela nos lembra que nenhum sistema de opressão foi eterno. Todos pareciam intransponíveis até que homens e mulheres comuns decidiram levantar a cabeça. O impossível começa a morrer quando alguém deixa de aceitar o mundo exatamente como ele é.
O que significa estar de joelhos?
Estar de joelhos não significa apenas obedecer ordens. Significa aceitar a injustiça como algo inevitável. É defender quem explora você. É acreditar que política não muda vidas enquanto outras pessoas utilizam a política para decidir quem terá acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à terra e ao próprio direito de existir.
Estar de joelhos é quando deixamos de pensar criticamente. É quando repetimos discursos produzidos por quem concentra riqueza e poder. É quando o medo substitui a consciência e a esperança dá lugar ao conformismo.
Che Guevara e as contradições da Revolução
Foi contra essa lógica que Ernesto Che Guevara se tornou uma das figuras mais conhecidas do século XX. Para admiradores e críticos, sua trajetória simboliza a possibilidade de que povos considerados pequenos enfrentassem grandes potências. Sua atuação contra o imperialismo norte-americano transformou Cuba em uma referência para diversos movimentos de libertação nacional e anticoloniais na América Latina, na África e em outras partes do mundo.
Mas estudar a história exige honestidade intelectual. A Revolução Cubana também foi marcada por graves violações de direitos humanos. Nas primeiras décadas após 1959, pessoas LGBTQIA+, especialmente homens homossexuais, sofreram perseguições, discriminação e foram enviadas para campos de trabalho forçado. Décadas depois, Fidel Castro reconheceu publicamente que aquelas políticas representaram um grave erro.
Reconhecer essas violações não diminui a importância histórica da luta contra o imperialismo. Apenas reforça um princípio fundamental: nenhuma causa política pode estar acima da dignidade humana. Uma revolução que não protege a liberdade de todos também precisa ser criticada.
O império também possui contradições
Muitas vezes somos levados a acreditar que determinadas potências representam o modelo perfeito de sociedade. A realidade, porém, é muito mais complexa. Os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do planeta, mas convivem com profundas desigualdades sociais. Milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, enquanto a riqueza permanece altamente concentrada. Comunidades negras, latinas e indígenas continuam sendo desproporcionalmente afetadas pela pobreza, pelo encarceramento e pelas desigualdades no acesso à saúde, à moradia e à educação.
Isso não significa negar os avanços científicos, tecnológicos ou institucionais daquele país. Significa compreender que nenhuma potência está livre de suas próprias contradições e que nenhum projeto político deve ser analisado apenas por sua propaganda.
As batalhas mudam. A resistência também.
Se ontem muitos lutavam contra correntes e grilhões, hoje enfrentamos formas mais sofisticadas de dominação. A desinformação, o racismo estrutural, a concentração de renda, a manipulação algorítmica, a exclusão política e a invisibilidade de determinados grupos continuam moldando a sociedade.
As armas mudaram. Os mecanismos de poder também. Mas a pergunta permanece exatamente a mesma: quem ocupa os espaços onde as decisões são tomadas?
2026: Como Romper o Ciclo de Invisibilidade das Candidaturas Negras
As eleições não resolvem todos os problemas de um país, mas continuam sendo um dos principais instrumentos para disputar projetos de sociedade. No Brasil, um dos grandes desafios continua sendo a sub-representação de diversos segmentos da população, especialmente das mulheres negras, que frequentemente enfrentam menos recursos, menos tempo de exposição e menos espaço no debate público.
Democracia não se fortalece apenas no dia da votação. Ela depende de cidadãos capazes de estudar, questionar, participar e compreender que representação política também é uma disputa por memória, por direitos e pelo futuro.
A história mostra que nenhuma transformação coletiva aconteceu porque alguém esperou autorização dos poderosos. Todas começaram quando pessoas comuns decidiram levantar a cabeça.