Menu

Tenente-coronel réu por feminicídio receberá cerca de R$ 20 mil mensais da Polícia Militar após aposentadoria concedida.

AI Brain

Que escárnio com a sociedade brasileira. Então é esse o preço que se estabelece quando a vida de uma mulher é interrompida de forma brutal? Um salário mensal, estabilidade garantida, dinheiro público pingando na conta enquanto a dor segue pulsando do outro lado. A pergunta não pede resposta rápida, ela exige desconforto. Porque o que está em jogo aqui não é apenas um caso isolado, é a forma como estruturas inteiras se posicionam diante do absurdo.

De acordo com informações do jornal O Globo, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu por feminicídio, teve sua aposentadoria concedida pela Polícia Militar de São Paulo e deve receber cerca de vinte mil reais mensais. Ao mesmo tempo, ele permanece preso e responde pelo assassinato da policial Gisele Alves Santana. A notícia não abre espaço para interpretação suave. Ela escancara uma contradição que fere o senso básico de justiça.

O sistema funciona. Funciona tão bem que continua operando mesmo quando a realidade grita por freio. Existe uma engrenagem que não para, que não hesita, que não se pergunta sobre o impacto do que está fazendo. Regras são aplicadas, protocolos são seguidos, e a máquina segue girando. Só que, nesse movimento automático, algo essencial se perde: o sentido.

Porque não se trata apenas de cumprir norma. Trata-se de compreender o que essa norma produz no mundo real. Quando o Estado mantém financeiramente alguém acusado de um crime dessa natureza, ele comunica algo. E essa comunicação é percebida, sentida, absorvida. A mensagem que escapa, ainda que ninguém a declare em voz alta, é de que existe uma desconexão profunda entre responsabilidade e consequência.

A dor de Gisele Alves Santana não cabe em planilhas administrativas. Não se encaixa em critérios frios. Não se resolve com justificativas técnicas. Existe uma família marcada, uma ausência definitiva, uma história interrompida. E diante disso, o que se vê é um sistema que continua garantindo estabilidade para quem deveria estar no centro de um debate ético muito mais rigoroso.

A indignação cresce porque o mínimo esperado seria um gesto de coerência. Não um julgamento antecipado, mas uma postura institucional que reconheça a gravidade do cenário. Que compreenda que certos casos exigem respostas à altura do impacto que causam. Que perceba que confiança pública não é um recurso infinito.

Existe uma diferença clara entre legalidade e legitimidade. Algo pode seguir a regra e ainda assim ferir profundamente o senso de justiça coletivo. É exatamente nesse espaço que esse caso se instala. Um espaço onde a lei caminha de um lado e a consciência social de outro.

E quando essas duas dimensões se afastam demais, o que surge é esse tipo de revolta. Uma revolta que não nasce de desinformação, mas de percepção. De gente que olha para a situação e entende, instintivamente, que algo está fora do lugar.

O problema maior não é apenas o benefício concedido. É o que ele simboliza. É a ideia de que determinadas estruturas protegem a si mesmas com eficiência, mesmo quando deveriam ser atravessadas por questionamentos mais profundos. É a sensação de que o peso da farda continua operando mesmo quando a gravidade do caso exige outro tipo de resposta.

A pergunta segue aberta, insistente, incômoda. O que vale mais dentro desse sistema? A vida interrompida ou a manutenção de privilégios construídos ao longo do tempo?

Enquanto essa resposta não se alinhar com aquilo que a sociedade considera justo, casos como esse continuarão deixando marcas. Marcas que não desaparecem com o tempo, porque tocam em algo essencial: a confiança.

E quando a confiança se rompe, o que sobra é exatamente isso que se vê agora. Indignação. E ela tem endereço certo.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

Leia Também

Sobre o Apagão Cibernético e o Fim das Redes Sociais

Sobre o Apagão Cibernético e o Fim das Redes Sociais

Um problema durante a atualização de software da empresa CrowdStrike causou um apagão global em diversos serviços no Brasil, incluindo...

O tempo em que a vida era feita de fita cassete e tardes intermináveis

O tempo em que a vida era feita de fita cassete e tardes intermináveis

Final dos anos 80, início dos 90. O tempo corre diferente. Não tem celular vibrando no bolso, nem mensagens piscando...