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Bilhão, representatividade e contradição: o dilema do sucesso preto no capitalismo.

AI Brain

Existe uma emoção real quando vemos uma pessoa preta ocupar um espaço historicamente negado. Existe orgulho. Existe identificação. Existe também um senso de reparação simbólica. Quando uma artista como Beyoncé alcança o status de bilionária, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de um imaginário coletivo que durante séculos foi alimentado com a ideia de que riqueza extrema tinha cor, território e sobrenome definidos. A presença de um corpo preto nesse topo altera a paisagem simbólica do poder. E isso importa.

Mas a maturidade política começa quando o encantamento dá lugar à análise estrutural. O capitalismo não se torna inclusivo porque permite exceções brilhantes. Ele permanece sendo um sistema construído sobre exploração histórica, colonialismo, extração de valor e concentração de riqueza. Malcolm X já alertava que o racismo não pode ser separado do modelo econômico que o sustenta. O sucesso individual dentro desse arranjo não dissolve suas bases. Pelo contrário, revela a complexidade de existir no topo de uma engrenagem que ainda opera desigualdade em escala global.

É aí que surge o dilema. Celebrar sem idolatrar. Criticar sem demonizar. Entender que representatividade é potência simbólica, mas não é sinônimo de transformação estrutural.

Gente, eu amo Beyoncé, tá? Danço, aprendi a dançar ensaiando exaustivamente Beyoncé e Michael Jackson muitos anos. Para quem não sabe, eu danço há mais de cinco anos. Amo, tenho um enorme respeito por toda a construção da carreira da artista, do lugar inimaginável que ela alcançou no mundo. Mas a gente precisa maturidade para amar e ainda assim analisar as estruturas que sustentam esse sucesso.

Beyoncé é genial. Disciplina, visão estética, inteligência estratégica. Ela construiu um império cultural. Só que império é palavra séria. Império envolve capital, cadeias globais de produção, fundos de investimento, acordos com conglomerados que historicamente operam sob uma lógica racializada. Malcolm X já apontava que capitalismo e racismo caminham juntos, que o sistema econômico moderno foi erguido sobre exploração racial. Quando uma artista preta atinge o bilhão dentro desse arranjo, surge uma tensão inevitável. A ascensão individual ocorre dentro de uma máquina que nasceu excludente.

O poder global sempre teve cor, sobrenome e território definidos. O poder é branco na sua origem histórica, nas suas instituições, nos seus bancos, nas suas bolsas de valores, nos seus conselhos administrativos. Quando corpos pretos chegam a esse topo, passam a circular entre interesses que moldaram o mundo para manter privilégios. A pergunta “Who run the world?” ganha outra camada. Quem manda no mundo é o capital. E capital tem dono, tem geografia, tem passado colonial.

Beyoncé 2026 se tornou bilionária.

Isso não diminui a grandeza da artista. Pelo contrário, amplia a complexidade do fenômeno. Beyoncé citou Malcolm X em palco, trouxe discursos de emancipação, afirmou estética e orgulho. Ao mesmo tempo, suas marcas operaram dentro de cadeias produtivas questionadas por condições precárias. Houve também parcerias empresariais com figuras envolvidas em denúncias graves, posteriormente desfeitas. Esses episódios revelam algo maior que uma pessoa. Revelam como o topo do capitalismo exige alianças com estruturas já contaminadas.

A questão central não é esperar salvacionismo de celebridades. Também não é transformar bilionários pretos em vilões automáticos. O ponto é entender que bilhão resulta de engrenagens que concentram riqueza globalmente. Para cada bilionário, existe uma base extensa de trabalhadores mal remunerados, majoritariamente racializados. A ascensão de alguns funciona como vitrine de possibilidade enquanto a estrutura permanece quase intacta.

Afro americanos bilionários ocupam hoje espaços simbólicos inéditos. Isso importa. Representatividade tem peso psicológico e político. Só que representação dentro do mesmo modelo econômico não altera a lógica central de acumulação. A crítica madura reconhece o mérito individual e simultaneamente questiona o sistema que permite a poucos concentrarem recursos equivalentes ao orçamento de países inteiros.

Amar Beyoncé e ainda assim refletir sobre capitalismo, poder e raça é exercício de consciência. É reconhecer que talento e genialidade explicam parte do caminho, enquanto as engrenagens financeiras explicam a escala do resultado. O debate sério desloca a lente da idolatria para a estrutura. Porque a pergunta verdadeira talvez seja outra. Quem construiu o mundo que define quem pode mandar nele.

 

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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