Os Quatro da Candelária, minissérie lançada pela Netflix em 2025, é uma dessas obras que deslocam o olhar do público. Não se trata de “recontar” a chacina ocorrida em julho de 1993 no centro do Rio de Janeiro, mas de reorganizar o foco sobre aquilo que quase sempre é apagado quando a violência vira manchete: as vidas antes da morte. A série escolhe acompanhar quatro crianças em situação de rua nas horas que antecedem o massacre, e essa decisão narrativa muda completamente o estatuto ético da obra. Não é um produto sobre o crime, é um produto sobre a vida que foi interrompida.
Essa escolha é central porque rompe com a tradição do audiovisual brasileiro de transformar tragédias sociais em espetáculo, em choque visual ou em moralismo. Aqui, não há fetichização da violência, nem câmera apaixonada pela desgraça. O que há é uma tentativa insistente de construir cotidiano: pequenos gestos, piadas internas, conflitos banais, formas de cuidado improvisadas, afetos possíveis dentro de um ambiente hostil. A série não pede que o espectador sinta pena; ela constrói vínculo. E esse vínculo é politicamente mais perigoso do que qualquer discurso inflamado.

Os Quattro da candelaria
Ao acompanhar as crianças antes do crime, o espectador é forçado a abandonar a posição confortável de quem olha para o “caso” de fora. Não são mais “menores”, “meninos de rua” ou “estatística”. São sujeitos, com personalidade, com humor, com desejo, com contradições. Isso desloca a violência do campo do extraordinário para o campo do estrutural. O problema não é apenas que houve uma chacina. O problema é que essas crianças estavam ali, expostas, invisíveis, desprotegidas, porque a sociedade construiu um sistema que naturaliza esse abandono.
A rua, na série, não é cenário pitoresco nem paisagem marginal. Ela é sistema social. É resultado de políticas públicas inexistentes ou insuficientes, de um modelo econômico que empurra corpos para fora, de uma cultura que aprende a conviver com crianças dormindo na calçada como se isso fosse parte do mobiliário urbano. A série não precisa explicar isso em diálogos didáticos. Ela mostra. Mostra na repetição dos gestos, na circulação dos mesmos personagens adultos em torno das crianças, na presença constante da ameaça, do risco, do olhar policial, do desprezo cotidiano.
E aqui está um dos maiores méritos da obra: ela não transforma os algozes em protagonistas ocultos. Não há uma superexposição da polícia, dos assassinos, da engrenagem institucional que produziu o massacre. Eles aparecem, mas não ocupam o centro. O centro são os quatro meninos. Isso é uma inversão radical em relação à lógica midiática tradicional, que costuma transformar o autor da violência em personagem principal e reduzir a vítima a função narrativa.
A série também é cuidadosa ao não romantizar a vida na rua. Não há idealização, não há estetização da miséria. Há beleza? Há, mas ela vem do humano, não da precariedade. Vem do riso, da amizade, da invenção de pequenos mundos dentro do caos. A rua é dura, perigosa, instável, e a série não esconde isso. Mas ela também não transforma essa dureza em espetáculo emocional para consumo do espectador. Ela trata a precariedade como condição, não como fetiche.
Outro ponto importante é o modo como a série dialoga com o presente sem precisar atualizar o enredo. Os Quatro da Candelária fala dos anos 1990, mas ecoa diretamente no Brasil de hoje, onde o extermínio de jovens pobres, sobretudo pretos, continua acontecendo sob novas narrativas, novas justificativas e novos silêncios. A série funciona como uma espécie de espelho histórico que devolve ao espectador uma pergunta incômoda: o que mudou de fato? O que foi transformado estruturalmente e o que apenas mudou de nome?
Nesse sentido, a obra opera como memória ativa. Não é memorial no sentido de encerramento, de “isso aconteceu e ficou no passado”. É memorial no sentido de ferida que permanece aberta enquanto as condições que a produziram continuam existindo. A chacina da Candelária não aparece como exceção monstruosa, mas como consequência possível de um sistema que aprende a conviver com a desumanização.
Por fim, Os Quatro da Candelária acerta justamente por não tentar ser maior do que é. Não quer ser tese, não quer ser manifesto, não quer ser tratado sociológico. Quer ser história. História de gente. História interrompida. E é exatamente por isso que ela incomoda tanto. Porque ao devolver rosto, voz e tempo àquelas crianças, a série retira do espectador a última proteção confortável: a de pensar que aquilo não diz respeito a ele.
A série não acusa diretamente o público. Ela faz algo mais sofisticado: ela aproxima. E quando você se aproxima, não dá mais para fingir que não viu.