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A revolução que não devia existir: como o Haiti desafiou a ordem do mundo e foi condenado por isso.

AI Brain

A Revolução do Haiti não foi um levante súbito, nem um espasmo de fúria coletiva que explodiu e desapareceu. Ela foi um processo longo, insistente, paciente e profundamente organizado, que se estendeu por cerca de doze anos, entre 1791 e 1804. Doze anos de guerra, articulação política, alianças instáveis, traições coloniais, bloqueios econômicos, massacres e reconstruções. Doze anos em que um povo inteiro decidiu que não aceitaria mais existir apenas como engrenagem de uma máquina colonial. Três nomes condensam esse processo histórico e simbólico: Dutty Boukman, Toussaint Louverture e Jean-Jacques Dessalines.

Dutty Boukman aparece no início como chama e ruptura. Sacerdote vodu e liderança comunitária, ele esteve no centro da cerimônia de Bois Caïman, em 1791, que marca simbolicamente o início da insurreição. Não se tratava apenas de um ritual religioso, mas de um pacto político e espiritual: um juramento coletivo de que a submissão havia terminado. Boukman não organizou exércitos formais, mas organizou consciência. Ele traduziu o sofrimento cotidiano em linguagem de ação. Foi assassinado logo nos primeiros meses da revolta, mas sua função histórica já estava cumprida: ele acendeu algo que não podia mais ser apagado.

Toussaint Louverture representa a segunda etapa da revolução: a passagem do levante para a estratégia. Antigo escravizado, alfabetizado, disciplinado, profundamente inteligente, Toussaint transformou a revolta em guerra organizada. Ele construiu exércitos, impôs disciplina, negociou com espanhóis, ingleses e franceses, jogando as potências umas contra as outras, sempre em função de um objetivo maior: a autonomia do território e o fim real da escravidão. Toussaint entendia que liberdade sem estrutura vira ruína. Por isso, criou uma administração, reorganizou a produção agrícola e tentou garantir que o novo Haiti não nascesse economicamente inviável. Seu erro, talvez, foi acreditar que a França aceitaria a perda de sua colônia mais lucrativa. Foi preso por Napoleão e morreu na prisão, em condições brutais. Mas deixou uma obra inacabada que outros continuariam.

Jean-Jacques Dessalines assume essa continuidade em seu momento mais radical. Se Toussaint foi o estrategista, Dessalines foi o executor da ruptura final. Ele rompeu qualquer ilusão de conciliação com a ordem colonial e levou a guerra até o fim. Foi sob sua liderança que o Haiti declarou formalmente sua independência em 1804, tornando-se a primeira república governada por descendentes de África no mundo moderno. Dessalines entendia algo que a história confirmou: o colonialismo não negocia sua própria morte. Ele precisa ser derrotado. A independência do Haiti não foi concedida. Foi arrancada.

O preço dessa ousadia foi altíssimo. A França só reconheceu a independência haitiana décadas depois, mediante uma indenização colossal, que o novo país foi obrigado a pagar aos antigos colonizadores pelo “prejuízo” de terem perdido pessoas escravizadas e plantações. Essa dívida, paga por mais de um século, drenou recursos, bloqueou investimentos e condenou o Haiti a uma fragilidade estrutural desde o nascimento. Além disso, o país foi isolado diplomaticamente, sabotado economicamente e transformado em exemplo do que acontece a quem ousa quebrar a hierarquia global.

O Haiti não fracassou. O Haiti foi punido.

Essa punição não terminou. Ela se atualiza em crises políticas alimentadas de fora, intervenções internacionais travestidas de ajuda, dependência econômica imposta, destruição ambiental e empobrecimento sistemático. A mão colonial não saiu do pescoço do Haiti. Ela apenas trocou de forma.

Por isso, falar da Revolução do Haiti hoje não é um exercício de nostalgia histórica. É um ato político. É lembrar que a liberdade não é compatível com a lógica colonial, que soberania tem custo e que todo povo que tenta existir fora da engrenagem paga um preço. O Haiti pagou por todos.

E é nesse ponto que a reflexão se amplia. Muitos descendentes de África hoje vivem em países que não são formalmente colônias, mas continuam mentalmente colonizados. Há uma ruptura profunda entre a memória de luta e a identidade contemporânea. Há quem despreze o próprio passado, ridicularize a própria ancestralidade, negue sua história em nome de aceitação social. Isso também é uma forma de derrota. Não militar, mas simbólica.

 

A Revolução do Haiti nos lembra que não há dignidade sem memória. Que não há futuro sem reconciliação com a própria origem. Que não há liberdade sem conflito com estruturas que lucram com a nossa subordinação.

O Haiti foi a prova viva de que a ordem do mundo não é natural. Ela é construída. E tudo que é construído pode ser desmontado.

Eu postei um vídeo no Instagram e também no meu Facebook sobre essa revolução. Clique aqui e acesse agora e veja o vídeo, se você ainda não viu.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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