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Após Réveillon, toneladas de lixo são recolhidas nas Praias do Brasil

AI Brain

O Réveillon é um retrato do Brasil em modo acelerado. A gente reúne milhões, ocupa a praia, celebra, promete recomeço, faz pedido olhando pro mar… e, poucas horas depois, o “recomeço” vira um tapete de descartáveis. No Rio, por exemplo, a limpeza pública registrou 980 toneladas de resíduos no Réveillon 2025, sendo 508 só em Copacabana.  Em 2024, a virada também virou notícia pelo volume: 969 toneladas recolhidas, com 484 em Copacabana.  É muita coisa. É o tipo de número que deveria constranger qualquer sociedade que se leva a sério.

E não é um “problema do Rio”. Em João Pessoa, a operação de limpeza divulgou recolhimento de 100 toneladas nas primeiras horas de 2026.  Em Salvador, operações recentes passaram da casa das centenas de toneladas na virada, e ainda assim o que costuma ganhar destaque é a festa, o palco, o show, a foto bonita, o drone no céu.  O lixo fica como rodapé da alegria. Só que esse rodapé não some, ele escorre. Vai para bueiro, canal, rio, mar. Vai para a cadeia alimentar. Vai para o turismo, para a saúde, para o bolso público. O “depois a gente vê” é literalmente varrido e empurrado para longe dos olhos, como se o mundo acabasse no limite do nosso feed.

Tem um truque psicológico aí: quando todo mundo suja, ninguém se sente responsável. A sujeira vira paisagem. O copo no chão vira “normal”. A garrafa na areia vira “alguém recolhe”. E aí entra a parte mais cínica: a gente naturaliza uma multidão consumindo e descartando como se o planeta tivesse um botão mágico de reset. Só que o reset é feito por gente. Gente acordando cedo, varrendo vidro, recolhendo resto de comida, enfrentando mau cheiro, cansaço, risco de corte e acidente. E, do outro lado, tem o custo invisível: caminhões, combustível, logística, aterro, triagem, horas extras, equipamentos. A festa é privada, mas a conta do lixo é pública.

E quando a conta é pública, a discussão não pode ficar no moralismo do “educação” apenas, como se bastasse um post fofo pedindo consciência. Educação ajuda, claro. Mas o coração do problema é modelo. É um modelo que empurra a gente para o descartável porque é conveniente, barato na ponta do consumidor e lucrativo para quem vende. A praia lotada vira uma linha de produção de resíduos: compra, usa, joga fora, repete. Se a estrutura do evento facilita o descarte e dificulta a devolução, o resultado é previsível. Se a bebida vem em embalagem que não volta, volta como lixo. Se a fiscalização é frouxa e a multa é inexistente, vira convite. Se o banheiro é insuficiente, a cidade inteira paga em contaminação. Não é um “descuido”. É um sistema funcionando exatamente como foi desenhado.

Aí entra uma pergunta que incomoda: por que a gente aceita tão facilmente que a beleza do litoral seja tratada como lixeira pós festa? Talvez porque exista uma mentalidade antiga, colonial até, de que “terra” e “mar” são recursos sem dono, portanto sem valor. Só que o dono aparece depois, quando vem a ressaca de consequências: tartaruga com plástico, peixe contaminado, microplástico no sal, na água, no corpo. E aí não adianta romantizar a natureza como se ela fosse uma mãe infinita que aguenta tudo. Natureza não é mãe. É sistema. E sistema colapsa.

Dá para virar esse jogo sem estragar a festa, mas exige decisão política e coragem de mexer no conforto. Copo retornável com caução em áreas de evento, pontos de devolução em grande quantidade, proibição real de certos descartáveis, metas públicas de redução, contratação de cooperativas com remuneração justa, coleta seletiva que não seja enfeite, campanha pesada antes e durante, fiscalização que funcione, multa que doa no bolso. E, principalmente, responsabilidade compartilhada: produtor do evento, prefeitura, marcas patrocinadoras, comércio ambulante, público. Cada um com sua obrigação clara. Porque do jeito que está, é um roteiro repetido: a festa cresce, o lixo cresce, a limpeza corre atrás, e o mar engole o resto.

Tem também uma dimensão simbólica: o Réveillon é um ritual coletivo de esperança. A gente veste branco, faz promessa, pede paz, pede prosperidade. Só que esperança sem prática vira fantasia. Não tem prosperidade sustentável num país que trata a própria costa como cenário descartável. Não tem “ano novo” quando a cidade começa o ano devolvendo para o oceano a prova do próprio descaso. Talvez a virada mais radical seja essa: fazer do primeiro dia um pacto de maturidade, onde celebrar não significa sujar, onde alegria não depende de deixar rastro, onde o “novo” começa com responsabilidade, não com a velha ideia de que sempre vai ter alguém limpando nossa bagunça.

Que em 2026 a gente pare de terceirizar consciência. Praia não é lixeira. Mar não é sumidouro. E recomeço de verdade precisa caber no mundo real, não só na legenda bonita.

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Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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