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Por que o feminismo incomoda mais do que o feminicídio.

AI Brain

A resposta, embora dolorosa, é assustadoramente simples: porque para uma sociedade estruturada sobre a dominação masculina, a mulher morta é mais aceitável do que a mulher livre. A mulher morta não confronta, não questiona, não exige direitos, não demanda igualdade. A mulher morta “resolve” o problema da autonomia. Ela não existe como sujeito — existe como aviso. Já a mulher livre é perigosa, é subversiva, é uma ruptura viva com todo o projeto patriarcal construído durante milênios. Ela ameaça as bases de um mundo que, desde sempre, foi desenhado por homens e para homens.

O feminicídio é a forma extrema e mais brutal dessa lógica. E não é raro, não é exceção, não é um ponto fora da curva: o Brasil segue carregando números vergonhosos em 2025. Mais de mil mulheres foram assassinadas só até setembro; muitas dentro de casa, pelos próprios companheiros. No mesmo período, as manchetes se repetiram como um padrão: mulheres mortas por ex-namorados que “não aceitavam o fim”, meninas assassinadas por homens que reivindicavam um poder que pensam possuir por direito. A cada novo caso, a sociedade se choca por alguns minutos — e depois volta à rotina, como se a morte dessas mulheres fosse um dano colateral previsível, quase inevitável.

Mas quando se fala de feminismo, ah… aí a coisa pega. Aí dói. Aí provoca reação. Porque o feminismo não fala da morte das mulheres; ele fala da vida delas. Da vida plena, da vida que exige espaço, igualdade, voz, autonomia econômica, liberdade sexual, independência emocional e política. O feminismo mexe com o que ainda está vivo — e, por isso mesmo, mexe com o poder.

O corpo da mulher como território ocupado
Em 2025, ainda é possível afirmar sem medo de exagero: o corpo feminino continua sendo visto como uma concessão masculina. Uma posse. Uma propriedade. Uma extensão do ego do homem. E quando essa posse decide ter vontade própria, o sistema range, treme, reage.

A mulher precisa vigiar a roupa que veste para não “provocar”.
Precisa analisar o horário em que sai de casa para não “se colocar em risco”.
Precisa medir as palavras, calibrar o tom de voz, negociar sua própria liberdade em pequenas parcelas: hoje posso isso, amanhã talvez não.

Essa vigilância constante não é acaso — é projeto. É a manutenção de um sistema onde a autonomia feminina é tratada como ameaça. Por isso, quando uma mulher ousa existir fora da tutela masculina — emocional, religiosa, social, econômica — a sociedade aciona seus alarmes internos. E muitos homens, individualmente, acionam suas violências.

Religião e o mito fundante da culpa feminina
Grande parte dessa estrutura é alimentada por narrativas religiosas milenares que insistem em colocar a mulher no lugar da origem do pecado, da desgraça, da ruína. A figura de Eva — sempre interpretada de forma literal e moralizante — paira como sombra: foi ela quem caiu em tentação, ela quem enganou, ela quem trouxe o mal ao mundo.

E o que se faz com aquilo que causa o mal? Controla-se. Silencia-se. Puni-se.
Essa leitura atravessou séculos e moldou culturas inteiras. Ainda hoje, milhões de meninas crescem ouvindo que devem ser submissas, recatadas, obedientes. Crescem acreditando que precisam se moldar à fragilidade, à docilidade, à dependência. A autonomia feminina é ensinada como desvio; a obediência, como virtude. Resultado? Mulheres que naturalizam abusos, que não reconhecem violência como violência, que acreditam que a felicidade está condicionada à aprovação masculina.

E antes que pareça distante, basta olhar ao redor: em igrejas, escolas, famílias, a narrativa ainda está ali — viva, atuante, disciplinadora.

O mundo é dos homens — e não por acaso
Empresas, bolsas de valores, parlamentos, universidades, diretórios, templos, tribunais… todos esses espaços têm donos, e os donos são homens. Não por competência inata, mas por privilégio histórico. E a manutenção desses privilégios depende de um detalhe simples: que as mulheres não avancem demais. Que elas ocupem, mas com moderação. Que cresçam, mas sem independência. Que falem, mas sem desafiar a estrutura.

O feminismo não aceita esse acordo.
O feminismo denuncia, tensiona, desloca.
E por isso incomoda mais do que o feminicídio: porque ele ataca a raiz do sistema, não suas consequências. Porque exige que homens deixem de ser senhores. Porque propõe um mundo onde o protagonismo não está automaticamente garantido ao masculino.

A pergunta que fica
Se uma sociedade tolera melhor a morte de uma mulher do que sua liberdade, que sociedade é essa?
E, mais profundamente: quem perde quando uma mulher vive plenamente?
A resposta é direta: perde o patriarcado. E justamente por isso ele reage.

O feminicídio é o alerta final de um sistema que quer manter as mulheres controladas. O feminismo é o movimento que insiste em quebrar essa corrente. Entre a liberdade e o controle, a sociedade revela o seu lado — e nem sempre é o lado da vida.

Mas é justamente por isso que o feminismo existe: para que um dia, Wanderson, o simples ato de uma mulher viver não seja motivo de incômodo, ameaça ou morte. Para que a liberdade feminina deixe de ser um inimigo — e se torne um fato🔥!

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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