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Descolonizar-se mentalmente é a única independência possível.

AI Brain

A colonização não termina quando os colonizadores vão embora. Ela continua dentro da mente. Colonização mental é quando um povo passa a acreditar nas verdades do opressor como se fossem suas, quando reproduz os símbolos, os valores, a religião e até o desprezo por si mesmo. É o estado em que a vítima adota a lógica do algoz e a defende com unhas e dentes. É olhar para si e enxergar inferioridade, é acreditar que só fora daqui existe progresso, é repetir com orgulho bandeiras e hinos que nunca nasceram do povo, mas das elites que o mantêm acorrentado. A colonização mental é a mais eficiente porque dispensa correntes de ferro: basta a aceitação cega, a manipulação bem-feita, o cabresto cultural e religioso.

Família Bragança

O 7 de setembro, celebrado como independência, nunca foi um grito de libertação. Foi um pacto entre elites brancas para manter intactas as estruturas coloniais. Não houve ruptura. Houve apenas continuidade. Em outras palavras: houve troca de opressores dentro da mesma família. O pai, em Lisboa, entrega o bastão ao filho no Rio de Janeiro, e a violência segue a mesma. A escravidão continua, o genocídio indígena segue, e o saque das riquezas se intensifica. O que chamaram de independência foi, na verdade, a formalização da usurpação: dar roupagem de legalidade ao sequestro de Pindorama, terra que já tinha donos, povos, culturas e histórias muito antes de 1500.

E até mesmo a bandeira nacional revela essa farsa. O mito ensinado nas escolas diz que o verde representa as matas e o amarelo as riquezas minerais. Mentira conveniente. O verde é a cor da Casa de Bragança, família de Dom Pedro I. O amarelo é da Casa de Habsburgo, de Leopoldina. Nossa bandeira não foi pensada para celebrar o povo, a floresta ou o ouro roubado: foi criada para exaltar famílias reais europeias que perpetuaram o controle. A identidade nacional foi construída sobre símbolos coloniais, pintados depois com histórias falsas para convencer o povo de que havia algo seu ali.

O resultado é um país que se orgulha de uma independência que nunca existiu. Que continua de joelhos, ontem para a Inglaterra, hoje para os Estados Unidos. Um país onde entreguistas e falsos patriotas marcham com duas bandeiras — a do Brasil e a norte-americana — acreditando estar defendendo a soberania, quando, na prática, estão celebrando submissão. Um país que chama de independência o direito de continuar sendo colônia.

Essa falsa independência jamais incluiu o povo preto. A liberdade proclamada nunca chegou às senzalas. Até hoje, a maioria da população preta permanece na base da pirâmide, nos trabalhos mais precarizados, nas periferias mais vulneráveis, nas estatísticas de violência policial e no encarceramento em massa. A herança do cativeiro continua.

Os povos indígenas, por sua vez, seguem resistindo a um genocídio contínuo. Desde 1500, foram expulsos, assassinados, reduzidos a estorvo para o “progresso”. Suas terras continuam invadidas por garimpeiros, latifundiários e grandes corporações. Pindorama, antes território sagrado de muitos povos, foi transformada em colônia e, até hoje, é tratada como mercadoria. Cada 7 de setembro que celebra a independência sem reconhecer essa história é mais uma pá de cal sobre a memória dos verdadeiros donos da terra.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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