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Eles não querem que você saiba: como a religião virou o melhor negócio do mundo.

AI Brain

A religião sempre foi uma força poderosa. Mas nos últimos tempos, ela se consolidou como algo ainda mais lucrativo: um negócio bilionário, com isenção fiscal, poder político e imunidade social. E enquanto o discurso espiritual promete cura, salvação e milagres, os bastidores revelam um sistema de manipulação sofisticado que se alimenta da fé de um povo adoecido, empobrecido e emocionalmente carente.

A presença de crianças e adolescentes no meio evangélico não é novidade, mas Miguel Oliveira, de apenas 14 anos, tem chamado atenção como poucos. Com mais de um milhão de seguidores no Instagram, vídeos com milhares de visualizações e cultos televisionados, ele se apresenta como “profeta” e recentemente causou revolta ao afirmar que “cura leucemia” enquanto rasgava supostos exames médicos em pleno púlpito. A imagem de um adolescente de jaleco, rasgando laudos como se tivesse autoridade divina para substituir oncologistas, é apenas o retrato mais escancarado do que acontece há décadas nos bastidores da fé: a espiritualidade sendo usada como entretenimento de massa, ferramenta de controle e fábrica de fortunas.

Da fé à fortuna: o mercado dos céus

Não faltam exemplos de pastores que enriqueceram sob o pretexto de servir a Deus. Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, já foi listado pela revista Forbes como bilionário. Seu império inclui emissoras de TV, gravadoras, editoras, escolas e uma estrutura empresarial comparável a grandes corporações.

Outro exemplo é Silas Malafaia, que além da atuação religiosa, movimenta milhões com a editora Central Gospel. Em entrevista à Veja, ele chegou a declarar: “Eu tenho é que ganhar dinheiro mesmo”. O dinheiro, neste contexto, não é consequência de um trabalho, mas parte do próprio sistema de crença. A teologia da prosperidade, adotada por boa parte das igrejas evangélicas, ensina que doar (de preferência à própria igreja) é o caminho mais rápido para alcançar bênçãos materiais. Em outras palavras: quanto mais você paga, mais perto está de Deus.


E esse fenômeno não é exclusivo do protestantismo. A Igreja Católica também carrega seu histórico de escândalos. Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba, renunciou após denúncias de acobertamento de abusos. Em 2020, o Vaticano foi investigado por movimentações financeiras suspeitas envolvendo imóveis de luxo em Londres, lavagens de dinheiro e transações obscuras. A fé, como produto, nunca esteve tão valorizada — e tão blindada de questionamento.

A máquina do controle: técnicas de dominação emocional

A chave do sucesso dessas igrejas não está apenas na fé. Está no controle psicológico sofisticado. O primeiro pilar é a culpa. Fiéis são levados a acreditar que seus sofrimentos são culpa do próprio pecado — e que a única forma de redenção é através da obediência irrestrita à doutrina. A segunda é o medo: do inferno, da morte, da rejeição divina. Medo é uma arma de manipulação que paralisa e cega. E a terceira, talvez a mais poderosa, é o messianismo: a ideia de que há alguém “escolhido” com acesso direto a Deus, alguém que deve ser obedecido, exaltado e jamais questionado.

Nesse cenário, a figura de um “profeta mirim” como Miguel Oliveira funciona como um espetáculo. Ele atende ao desejo coletivo por esperança, mas também reforça uma estrutura de poder vertical, onde a verdade vem de cima e o povo apenas consente. Crianças como Miguel são treinadas para performar o que o público quer ver: emoção, fé cega, e a promessa de que tudo pode mudar num passe de mágica — se você acreditar (e contribuir).

Quando o Estado se ajoelha

Um dos maiores agravantes desse fenômeno é a conivência institucional. Igrejas no Brasil contam com isenção de impostos, mesmo quando possuem empresas, emissoras e capital imobiliário. Políticos de diferentes partidos frequentam púlpitos em campanha, negociam votos com líderes religiosos e evitam tocar no tema por medo de perder apoio popular. O Estado laico, na prática, é só um conceito decorativo.

Mais grave ainda é a ausência de fiscalização sobre práticas abusivas. Quando um jovem de 14 anos afirma publicamente que cura doenças graves, como câncer, não se trata apenas de fé — trata-se de uma ameaça à saúde pública. Pessoas fragilizadas emocionalmente podem abandonar tratamentos médicos em troca de promessas de cura divina. E quando isso acontece, quem assume a responsabilidade?

O lucro da ignorância

Religiões poderiam ser espaços de acolhimento, sabedoria e conexão espiritual profunda. Mas no mundo atual, elas se tornaram máquinas de fazer dinheiro, produzir obediência e reprimir questionamentos. A cada megaevento gospel, a cada culto televisionado, a cada “milagre” encenado com aplausos e lágrimas, o que se constrói não é fé — é espetáculo. E como todo espetáculo, tem um custo. Mas nesse caso, quem paga é sempre a parte mais vulnerável da sociedade.

Enquanto isso, quem lucra se veste de terno, voa de jatinho, e vive blindado pela imunidade da fé.

Wanderson Dutch
Wanderson Dutch

Wanderson Dutch é escritor, dancarino, produtor de conteúdo digital desde 2015, formado em Letras pela Faculdade Capixaba do Espírito Santo (Multivix 2011-2014) e pós-graduado pela Faculdade União Cultural do estado de São Paulo (2015-2016). Vasta experiência internacional, já morou em Dublin(Irlanda), Portugal, é um espírito livre, já visitou mais de 15 países da Europa e atualmente mora em São Paulo. É coautor no livro: Versões do Perdão, autor do livro O Diário de Ayron e também de Breves Reflexões para não Desistir da Vida.

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